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3:25 p.m. - 2004-12-14
Como era verde meu vale, de John Ford

Algumas Obsessões
Fabricio


Como era verde meu vale, de John Ford

Qual a maior injustiça que a premiação do Oscar já cometeu? Os críticos, em expressiva maioria, acham que foram os prêmios de Melhor Filme e Melhor Direção dados para Como era verde meu vale (How green was my valley), de John Ford. Não que alguém ache este filme ruim, mas é que em 1941 concorriam contra ele Cidadão Kane, de Orson Welles, e O Falcão Maltês, de John Huston.
 
No filme são apresentadas as lembranças da infância de Huw (Ruddy McDowall), o mais novo dos irmãos (cinco rapazes e uma garota) da famíla Morgan, que é residente numa pequena vila de mineiros no País de Gales. Enquanto os homens trabalham na mina, a mãe e a irmã cuidam da casa. O convívio familiar é respeitoso - o pai é realmente o chefe da casa - mas o amor que todos sentem uns pelos outros não precisa ser externado para ser sentido pelo expectador em cada segundo do filme.
 
 
Como era verde meu vale é episódico: diversos fatos da vida dos Morgan e da vila de mineiros vão passando na tela à medida que o filme transcorre: a queda de Huw num lago gelado e seu longo período imobilizado para recuperação; a paixão de sua irmã (vivida Maureen O'hara) pelo pastor da vila (vivido por Walter Pidgeon), e seu posterior casamento infeliz com o ricaço da região; a ida de um dos irmãos Morgan para Londres para cantar para a rainha da Inglaterra; os primeiros dias do pequeno Huw na escola pública - e o sofrimento que ele passou lá.
 
O filme também mostra o sofrimento dos mineiros com a lenta e dolorosa decadência da vila: se no início todos parecem satisfeitos com sua qualidade de vida, o fechamento de uma fábrica numa vila próxima faz com que aumente o número de desempregados na região - tendo como conseqüência o desaparecimento de postos de trabalho e a diminuição da média dos salários na vila dos Morgan. Tudo isto causa uma longa e sofrida greve entre os mineiros - além de forçar a ida de alguns dos irmãos de Huw para os Estados Unidos. Impactante é a angústia nos olhos de todos os moradores da vila quando o sino da Igreja toca fora de hora, possivelmente avisando para mais um dos freqüentes acidentes na mina: a vida dos operários parece estar sempre por um fio.
 
Como em No tempo das diligências (ver mais detalhes aqui), em Como era verde meu vale John Ford também mostra grande apreço pelas classes menos favorecidas e critica violentamente os hipócritas que se acham melhores, e que julgam seus semelhantes: "não é esta a mensagem do Evangelho", diz a irmã de Huw lá pelas tantas. Aliás, como em O Céu mandou alguém (analisado aqui), a religiosidade também é importante neste filme.
 
A fotografia em preto-e-branco de Como era verde meu vale é maravilhosa, utilizando o claro-escuro com maestria. Os personagens são todos consistentes e bem delineados - e a história é dramática mas nunca cai no melodrama.
 
A verdade é que, enquanto Cidadão Kane parece agradar muito mais pela técnica do que por qualquer outra coisa, e enquanto O Falcão Maltês tem um roteiro dificíl de se acompanhar, o profundo humanismo de Como era verde meu vale enche os olhos - e a alma - do espectador.
 
Acho que a Academia estava correta quando da premiação de 1941.
 

 

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