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11:00 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Primeiro Momento - A Centésima
Janela Meu amigo Gil, que entende horrores de ópera e de música clássica,
chamou o novo disco do Massive Attack, 100th Window, de "wagneriano". Cito isto apenas (mesmo
porque conheço pouquíssimo Wagner) para dar uma idéia da profundidade e da
grandeza deste cd. Se fosse descrever esta obra-prima em apenas uma palavra, esta
seria: "densa". A extraordinária capacidade do Massive Attack em fazer música
em camadas atinge o máximo grau aqui. É possível ouvir 100th
Window tanto prestando atenção nos belíssimos temas hipnóticos de
praticamente todas as músicas, quanto nos detalhezinhos que aparecem a todo o
tempo, em todas as músicas: um barulhinho eletrônico aqui, um ruidozinho ali,
uma orquestra de cordas tocando temas orientais acolá. Além disso, o sentido
musical do crescendo e do diminuendo é trabalhado aqui com enorme
maestria: algumas músicas vão ficando mais ou menos intensas à medida que o
tempo passa - em modulações de ritmo que, literalmente, tiram o fôlego do
ouvinte incauto. E toda esta complexidade sonora é acompanhada pelo cantar monótono
e sussurrado do vocalista Robert Del Naja em algumas faixas, pela belíssima voz
da convidada Sinéad O'Connor em outras, e pelo reggaeman Horace Andy em outras.
Não há duetos vocais no disco, ao contrário do que ocorria no espetacular
Mezzanine, o disco anterior do Massive Attack. Ainda no dizer do Gil, em
100th Window a voz atua como se fosse mais um instrumento, fazendo parte
da massa sonora, resultando num efeito belíssimo e quase sobrenatural - efeito
este que, aliás, já era uma característica da banda em discos anteriores,
atingindo a perfeição aqui. É até injusto falar em destaques nesta obra-prima. Mas Small
Time Shot Away e Future Proof, cantadas "preguiçosamente" por Robert
Del Naja, as hipnóticas Antistar e Butterfly Caught, também com
Del Naja, e a inacreditável Special Cases, com Sinéad O'Connor, parecem
estar um pouco à frente das demais. Mas o disco todo, não custa insistir, é uma
obra de Arte com A maiúsculo. Na verdade, 100th Window é tão extraordinário que parece
estar à frente do nosso tempo. Parte da crítica, inclusive, não gostou do disco.
Mas basta ler com atenção algumas das resenhas negativas, como aquela que diz
que "bom mesmo era o tempo em que a banda era pop", para que rapidamente
percebamos que 100th Window não é para todos os gostos. O Massive Attack,
na verdade, tem um formato pop mas já é quase tão complexo quanto a melhor
música erudita (não confundir aqui com rock progressivo). Não é à toa que
o Gil chamou 100th Window de "wagneriano".
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