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11:06 a.m. - 2004-12-14
A arte em dois momentos (segunda parte)
Algumas Obsessões Fabricio
A Arte em Dois Momentos (Segunda
Parte)
A arte em dois momentos (Segunda Parte) Narrativas do Espólio, por
Franz Kafka
dedicado a minha mãe
- "Ah", disse o rato, "o mundo torna-se cada vez mais estreito. A
princípio era tão vasto que me dava medo, eu continuava correndo e me
sentia feliz com o fato de que finalmente via à distância, à direita e à
esquerda, as paredes, mas essas longas paredes convergem tão depressa uma
para a outra, que já estou no último quarto e lá no canto fica a ratoeira
para a qual eu corro". - "Você só precisa mudar de direção", disse o gato,
e devorou-o.
O pequeno conto acima chama-se Pequena
Fábula, foi escrito por Franz Kafka e traduzido magistralmente por Modesto
Carone. Ele faz parte do volume chamado Narrativas do Espólio, publicado
pela Companhia das Letras, que engloba os contos escritos por Kafka que não
foram publicados enquanto este estava vivo - daí o título, dado postumamente.
Assim como O Abutre (ver mais detalhes aqui),
Pequena Fábula é uma pequena obra-prima que, num único parágrafo, mostra
toda a sombria visão de mundo de Kafka, onde simplesmente não há nenhuma saída
possível. Aliás, a tradução de Modesto Carone para O Abutre (também
incluída em Narrativas do Espólio) segue abaixo:
- Era um abutre que bicava meus pés. Ele já havia estraçalhado botas
e agora bicava os pés propriamente. Toda vez que atacava, voava várias
vezes ao meu redor, inquieto, e depois prosseguia o trabalho. Passou por
ali um senhor, olhou um pouquinho e perguntou então por que eu tolerava o
abutre.
- -Estou indefeso - eu disse. - Ele chegou e começou a bicar,
naturalmente eu quis enxotá-lo, tentei até enforcá-lo, mas um animal
desses te muita força, ele também queria saltar no meu rosto, aí eu
preferi sacrificar-lhe os pés. Agora eles estão quase despedaçados.
- - Imagine, deixar-se torturar dessa maneira! - disse o senhor. - Um
tiro e o abutre está liquidado.
- - É mesmo? - perguntei. - E o senhor pode cuidar disso?
- - Com prazer - disse ele -, só preciso ir para casa pegar minha
espingarda. O senhor pode esperar mais meia hora?
- - Isso eu não sei - disse e fiquei em pé um momento, paralisado de
dor.
- Depois falei:
- - De qualquer modo tente, por favor.
- - Muito bem - disse o senhor. - Vou me apressar.
- Durante a conversa o abutre escutou calmamente, deixando o olhar
perambular entre mim e aquele senhor. Agora eu via que ele tinha entendido
tudo: levantou vôo, fez a curva da volta bem longe para ganhar ímpeto
suficiente e depois, como um lançador de dardos, arremessou até o fundo de
mim o bico pela minha boca. Ao cair para trás senti, liberto, como ele se
afogava sem salvação no meu sangue, que enchia todas as profundezas e
inundava todas as margens.
A mesma impossibilidade, a
mesma falta de saídas viáveis, o mesmo tipo de história é o que Kafka apresenta
em outro conto de Narrativas do Espólio, chamado Batida no portão da
propriedade, que conta a história de um casal de irmãos que é preso -
possivelmente para sempre - e torturado porque a menina bateu, por traquinagem,
no portão de uma propriedade e saiu correndo.
Mas Kafka nem sempre é tão
dramático e violento: em outros contos situações "kafkianas" aparecem em
situações muito mais prosaicas - e quase engraçadas. Um exemplo notável é
o pequeno conto Desista!, reproduzido abaixo:
- Era de manhã bem cedo, as ruas limpas e vazias, eu ia para a
estação ferroviária. Quando confrontei um relógio de torre com o meu
relógio, vi que já era muito mais tarde do que havia acreditado,
precisava me apressar bastante; o susto dessa descoberta fez-me ficar
inseguro no caminho, eu ainda não conhecia bem aquela cidade, felizmente
havia um guarda por perto, corri até ele e perguntei-lhe sem fôlego pelo
caminho. Ele sorriu e disse:
- - De mim você quer saber o caminho?
- - Sim - eu disse -, uma vez que eu mesmo não posso encontrá-lo.
- - Desista, desista - disse ele e virou-se com um grande ímpeto,
como as pessoas que querem estar a sós com o seu riso.
Em Narrativas do Espólio, a visão kafkiana da
impossibilidade das coisas aparece das maneiras mais inesperadas: em O
Vizinho, um concorrente direto se estabelece ao lado do escritório do
personagem principal e se aproveita das paredes finíssimas que separam os dois
para ouvir tudo; em O Timoneiro um homem tira, à força, o timoneiro de um
navio de seu posto, e o restante da tripulação assiste a tudo sem reagir; Uma
confusão cotidiana conta a história de A, que tenta mas simplesmente não
consegue fechar um negócio com B, que mora em H; a segunda parte do notável
conto Blumfeld, um solteirão de meia idade conta os (praticamente
insolúveis) problemas que o personagem principal encontra em seu trabalho; O
mestre-escola da aldeia conta a história de um senhor que descobriu "uma
toupeira muito grande" mas cuja descoberta não era respeitada por que ele não
era cientista; O recrutamento das tropas mostra rapazes que viajam para
outras cidades e tentam, em vão, ser convocados para o exército;
Comunidade conta a história de cinco amigos que andam sempre juntos, e
tentam de todas as maneiras excluir um sexto que se imiscui entre eles.
A
descrição minuciosa e avassaladora de burocracias absurdas é outro pilar dos
escritos de Kafka. Um exemplo disso é o inesperado e magistral conto
Posêidon, onde o deus dos mares se sacrifica para colocar o trabalho em
dia:
- Posêidon estava sentado à sua escrivaninha e fazia contas. A
administração de todas as águas lhe dava um trabalho interminável. Poderia
ter quantos auxiliares quisesse, possuía muitos, aliás; mas, uma vez que
levava muito a sério seu ofício, revia mais uma vez tudo e sendo assim os
auxiliares o ajudavam pouco. Não se pode dizer que o trabalho o alegrasse;
na verdade ele o realizava só porque lhe fora imposto; já havia solicitado
muitas vezes tarefas mais prazerosas, conforme se expressava; mas, sempre
que lhe faziam propostas diferentes, era manifesto que nada o agradava
tanto quanto o cargo que até então ocupara. Era muito difícil, além disso,
encontrar outra coisa para ele. Com efeito, era-lhe impossível
atribuir-lhe algo como um determinado mar; sem mencionar que, neste caso,
o trabalho de calcular não seria apenas maior, mas também mesquinho, o
grande Posêidon só podia receber um posto que fosse dominante. E, se lhe
ofereciam um ofício fora da água, sentia-se mal com a idéia: seu alento
divino se descontrolava, o tórax de bronze oscilava. De resto, não levavam
realmente a sério as queixas que fazia; quando um poderoso importuna, é
preciso dar a impressão de tentar ceder mesmo nas questões mais sem
perspectiva: ninguém pensava em remover de fato Posêidon do seu posto;
desde o início mais remoto tinha sido destinado a ser o rei dos mares e
assim devia permanecer.
- O que mais o irritava - e essa era a causa principal de sua
insatisfação com o cargo - era escutar as imagens que faziam dele como,
por exemplo, ele dirigindo sem parar as ondas com o tridente. Enquanto
isso Posêidon estava sentado nas profundezas dos mares do mundo, fazendo
contas ininterruptamente; de vez em quando uma viagem para se encontrar
com Júpiter era a única quebra de monotonia - viagem, por sinal, de que
ele na maioria das vezes voltava furioso. Assim é que mal tinha visto os
mares: só fugazmente, durante a célere ascensão ao Olimpo, sem nunca o ter
efetivamente atravessado. Costumava dizer que ia esperar o fim do mundo,
aí então se produziria com certeza um segundo de tranqüilidade, no qual
ele, bem próximo ao fim, depois de revisar o último cálculo, poderia ainda
dar, rapidamente, um pequeno giro por tudo.
A burocracia
kafkiana aparece também, por exemplo, em Advogados de defesa, que conta
das dificuldades em se obter os tais advogados: a descrição asfixiante de um
edifício público parece ter saído do romance O Processo, do mesmo autor.
Originário deste livro parece ser também Sobre a questão das leis, onde
pessoas do povo discutem se as leis existem mesmo - já que ninguém tem acesso a
elas - ou se são apenas uma ficção criada pelos nobres para que estes se
perpetuem no poder. A distância intransponível entre os donos do poder e o povo
é exemplificada brilhantemente em Durante a construção da Muralha da
China. O poder despótico das ditaduras é mostrado em A Recusa, onde
as pessoas de uma aldeia se reúnem numa praça e pedem favores - quase sempre
recusados - ao coronel que domina a região.
Um tema que já aparecera em
obras de Kafka como Carta ao pai, a dificuldade de relações entre pais e
filhos, é retratado em Volta ao lar - onde o rapaz que chega à casa
paterna depois de algum tempo fora não consegue pegar coragem para bater na
porta e entrar.
Outros contos em Narrativas do Espólio são,
entretanto, de mais difícil classificação. Muitos deles têm, sim, o travo amargo
característico de Kafka, mas acabam enveredando por outros caminhos: linguagem
poética, paradoxo, ou fantástico - ou mesmo uma mistura de todos estes. Veja-se
por exemplo o interessantíssimo e inesperado A verdade sobre Sancho Pancha:
- Sancho Pança, que por sinal nunca se vangloriou disso, no curso dos
anos conseguiu, oferecendo-lhe inúmeros romances de cavalaria e de
salteadores nas horas do anoitecer e da noite, afastar de si o seu demônio
- a quem mais tarde deu o nome de D. Quixote - de tal maneira que este,
fora de controle, realizou os atos mais loucos, os quais no entanto, por
falta de um objeto predeterminado - que deveria precisamente ser Sancho
Pança -, não prejudicaram ninguém. Sancho Pança, um homem livre,
acompanhou imperturbável, talvez por um certo senso de responsabilidade,
D. Quixote nas suas sortidas, retirando delas um grande e proveitoso
divertimento até o fim de seus dias.
Uma espécie
de exercício paradoxal de inteligência é o conto Sobre os símiles:
- Muitos se queixam de que as palavras dos sábios não passam de
símiles, mas não utilizáveis na vida diária - e esta é a única que temos.
Quando o sábio diz: "Vá para o outro lado", ele não quer significar que se
deva passar para o lado de lá, o que, seja como for, ainda se poderia
fazer, se o resultado da caminhada valesse a pena; ele no entanto se
refere a algum outro lado lendário, a alguma coisa que não conhecemos, que
nem ele consegue designar com mais precisão e que, também neste caso, não
pode nos ajudar em nada. Todos esses símiles, na realidade, querem apenas
dizer que o inconcebível é inconcebível, e isso nós já sabíamos. Porém
aquilo com que nos ocupamos todos os dias são outras coisas.
- A esse respeito alguém disse: "Por que vocês se defendem? Se
seguissem os símilies, teriam também se tornado símiles e com isso livres
do esforços do dia-a-dia".
- Um outro disse: "Aposto que isso também é um símile".
- O primeiro disse: "Você ganhou".
- O segundo disse: "Mas infelizmente só no símile".
- O primeiro disse: "Não, na realidade; no símile você
perdeu".
Por mais amargo que seja o conto, A
ponte é um exemplo da belíssima linguagem poética de Kafka:
- Eu estava rígido e frio, era uma ponte, estendido sobre um abismo.
As pontas dos pés cravadas deste lado, do outro as mãos, eu me prendia
firme com os dentes na argila quebradiça. As abas do meu casaco flutuavam
pelos meus lados. Na profundeza fazia ruído o gelado riacho de trutas.
Nenhum turista se perdia naquela altura intransitável, a ponte ainda não
estava assinalada nos mapas. - Assim eu estava estendido e esperava; tinha
de esperar. Uma vez erguida, nenhuma ponte pode deixar de ser ponte sem
desabar.
- Certa vez, era pelo anoitecer - o primeiro, o milésimo, não sei -
meus pensamentos se moviam sempre em confusão e sempre em círculo. Pelo
anoitecer no verão, o riacho sussurrava mais escuro - foi então que ouvi o
passo de um homem! Vinha em direção a mim, a mim. - Estenda-se, ponte,
fique em posição, viga sem corrimão, segure aquele que lhe foi confiado.
Compense, sem deixar vestígio, a insegurança do seu passo, mas, se ele
oscilar, faça-se conhecer e como um deus da montanha atire-o à terra
firme.
- Ele veio; com a ponta de ferro da bengala deu umas batidas em mim,
depois levantou com ela as abas do meu casaco e as pôs em ordem em cima de
mim. Passou a ponta por meu cabelo cerrado e provavelmente olhando com
ferocidade em torno deixou-a ficar ali longo tempo. Mas depois - eu estava
justamente seguindo-o em sonho por montanha e vale - ele saltou com os
dois pés sobre o meio do meu corpo. Estremeci numa dor atroz, sem
compreender nada. Quem era? Uma criança? Um sonho? Um salteador de
estrada? Um suicida? Um tentador? Um destruidor? E virei-me para vê-lo. -
Uma ponte que dá voltas! Eu ainda não tinha me virado e já estava caindo,
desabei, já estava rasgado e trespassado pelos cascalhos afiados, que
sempre me haviam fitado tão pacificamente da água
enfurecida.
Fascinante também é o conto Prometeu,
sobre o personagem da mitologia grega que, humano, tentou tirar o fogo dos
deuses e em virtude disso foi por estes preso eternamente a uma rocha, com o
fígado continuamente bicado por uma águia:
- Sobre Prometeu dão notícias quatro lendas:
- Segundo a primeira, ele foi acorrentado no Cáucaso porque havia
traído os deuses aos homens, e os deuses remeteram águias que devoravam
seu fígado que crescia sem parar.
- De acordo com a segunda, Prometeu, por causa da dor causada pelos
bicos que o picavam, comprimiu-se cada vez mais fundo nas rochas até se
confundir com elas.
- Segundo a terceira, no decorrer dos milênios sua traição foi
esquecida, os deuses se esqueceram, as águias se esqueceram, e ele próprio
se esqueceu.
- Segundo a quarta, todos se cansaram do que havia se tornado sem
fundamento. Os deuses se cansaram, as águias se cansaram, a ferida,
cansada, fechou-se.
- Restou a cadeia inexplicável de rochas. A lenda tenta explicar o
inexplicável. Uma vez que emerge de um fundo de verdade, ela precisa
terminar de novo no que não tem explicação.
E o
que dizer sobre o extraordinário e onírico À noite? O melhor é apenas
reproduzi-lo aqui:
- Afundado na noite. Como alguém que às vezes baixa a cabeça para
meditar, totalmente afundado na noite. Em torno as pessoas dormem. Uma
pequena encenação, um inocente auto-engano de que dormem em casas, em
camas firmes, sob o teto sólido, estirados ou encolhidos sobre colchões,
em lençóis, sob cobertas, na realidade reuniram-se como outrora e mais
tarde, em região deserta, um acampamento ao ar livre, um número
incalculável de pessoas, um exército, um povo, sob o céu frio, na terra
fria, estendidos onde antes estavam em pé, a testa premida sobre o braço,
o rosto voltado para o chão, respirando tranqüilamente. E você vigia, é um
dos vigias, descobre o mais próximo pela agitação da madeira em brasa no
monte de galhos secos ao seu lado. Por que você vigia? Alguém precisa
vigiar, é o que dizem. Alguém precisa estar
aí.
Outros exemplos de contos "inclassificáveis"
de Narrativas do Espólio: O caçador Graco, que conta a história de
um cadáver que, de alguma forma, ainda vive e mantém a consciência, e que
peregrina num barco pelo mundo; a primeira parte de Blumfeld, um solteirão de
meia-idade, que apresenta duas bolinhas saltitantes que seguem a personagem
principal por toda a parte; Um cruzamento, uma história contada com
maestria e profundidade sobre um animal metade gatinho, metade cordeiro; O
silêncio das sereias, que mostra a esperteza do personagem mitológico
Ulisses ao escapar do feitiço das sereias; O brasão da cidade, um pequeno
conto totalmente inesperado sobre a Torre de Babel; o paradoxal A Prova;
O Pião, que fala de um filósofo que queria descobrir o verdadeiro
significado das coisas num pião jogado por crianças; o estranho O Casal,
que trata de uma ressurreição; e o virtualmente inclassificável Investigação
de um cão, "certamente uma das ficções mais originais e misteriosas da obra
de Kafka", no dizer do tradutor Modesto Carone.
Narrativas do Espólio
é um livro belíssimo, paradoxal, surpreendente, onde o magistral estilo seco
e objetivo de Kafka cede espaço, aqui e ali, para passagens oníricas e/ou
poéticas. Creio que a melhor maneira de concluir a coluna sobre este livro é
reproduzir um de seus melhores contos, A Partida:
- Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me
entendeu. Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi
soar à distância uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele
não sabia de nada e não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve
e perguntou:
- - Para onde cavalga, senhor?
- - Não sei direito - eu disse - só sei que é para fora daqui, fora
daqui. Fora daqui sem parar: só assim posso atingir meu objetivo.
- - Conhece então seu objetivo? - perguntou ele.
- - Sim - respondi -. Eu já disse: "fora-daqui", é esse o meu
objetivo.
- - O senhor não leva provisões - disse ele.
- - Não preciso de nenhuma - disse eu -. A viagem é tão longa que
tenho de morrer de fome se não receber nada no caminho. Nenhuma provisão
pode me salvar. Por sorte esta viagem é realmente imensa.
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