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2:28 p.m. - 2004-12-14
A cidade e as serras

Algumas Obsessões
Fabricio


A cidade e as serras

Isto aconteceu no início dos anos oitenta. Com quem estabeleci o diálogo não lembro, mas deve ter sido alguém que estudou comigo no primeiro grau. Estávamos num ônibus, sentados lado a lado.

OUTRO SUJEITO: O que você está lendo?

EU: O primo Basílio, de Eça de Queirós.

OUTRO SUJEITO: Por quê?

EU: Mmmmmm (sem saber o que responder). Por nada. Gosto de ler.

Apesar de eu não lembrar com quem falei naquele dia, não consigo esquecer a expressão de espanto do sujeito. Ele devia estar se perguntando: como alguém lê um livro sem ter necessidade?

O pior de tudo é que eu que eu mesmo não sabia por que estava lendo aquele livro sem necessidade.

Eu estava achando O primo Basílio um livro chatíssimo.
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A razão de eu não ter gostado dos três livros que li de Eça Queirós (os outros dois, A relíquia e A ilustre casa de Ramires, também foram lidos sem necessidade) pode ser achada no estilo do autor português do século retrasado: segundo Ronaldo Menegaz, na introdução de A ilustre casa de Ramires (Editora Bruguera: Rio de Janeiro, 1971), o estilo de Eça de Queirós é dos mais ricos em recursos: adjetivação, transposições, repetições - figuras de linguagem e de estilo, recursos retóricos dos mais variados. E esta riqueza de recursos me irritava em Eça. Além de usar palavras pouco utilizadas no linguajar comum, o seu estilo é tão exuberante que uma pequena desatenção nos faz perder o fio-da-meada da história.
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Muitos anos depois, comecei a comprar os livros da Coleção Obras-Primas da Editora Abril (ver o site da coleção aqui) que eu ainda não tinha, ou que tinha jogado fora. Até que chegou o momento que um dos livros vendidos nas bancas era A cidade e as serras, de Eça de Queirós. Resolvi encarar o desafio. Quem sabe agora gostasse do autor português.

Desde o início percebi que não estava assim tão enganado na adolescência. Realmente o estilo de Eça é cansativo, rico demais. Vejamos um exemplo, tomado logo da primeira página:

Seu avô, aquele gordíssimo e riquíssimo Jacinto a quem chamavam em Lisboa em o om Galião, descendo uma tarde pela travessa da Trambuqueta, rente de um muro de quintal que uma parreira toldava, escorregou uma casca de laranja e desabou no lajedo. Da portinhola da horta saía nesse momento um homem moreno, escanhoado, de grosso casaco de baetão verde e botas altas de picador, que, galhofando e com uma força fácil, levantou o enorme Jacinto - que até lhe apanhou a bengala de castão de ouro que rolara para o lixo. Depois, demorando nele os olhos pestanudos e pretos:
- Ó Jacinto Galião, que andas tu aqui, a estas horas, a rebolar pelas pedras?
E Jacinto, aturdido e deslumbrado, reconheceu o sr. infante dom Miguel!
No exemplo acima percebe-se o quão rico é o estilo de Eça. O escritor preenche com um várias informações adicionais um trecho onde o que deveria ser contado era apenas: o avô escorregou e caiu numa travessa, sendo depois levantado - para grande espanto seu - pelo Infante dom Miguel, que se divertiu muito com o ocorrido. A descrição das roupas e dos tipos físicos dos dois protagonistas poderia estar em outro local ou, simplesmente, escrita de outra maneira - o que facilitaria sobremaneira a leitura.

Mas eu achei que não valeria a pena desistir por pouca coisa - e acabei sendo plenamente recompensado. A cidade e as serras é delicioso.

O livro conta a história de Jacinto de Tormes - o neto do Jacinto supracitado -, e é contado por seu melhor amigo, José Fernandes. Ambos são portugueses, e no início da história estão morando em Paris - Fernandes como hóspede de Jacinto. Este último é riquíssimo, e acha que a verdadeira felicidade está nos livros, no conhecimento - além disso, ele e é contra qualquer contato com a natureza.

No início do livro Fernandes, o narrador, depois de vários anos administrando sua fazenda no interior de Portugal, é convidado para passar uma temporada em Paris no grande e luxuoso apartamento de seu abastado amigo em Paris. É então descrito o dia-a-dia de Jacinto de Tormes, que compra e   centenas de livros de todos os ramos do conhecimento humando, adquire as maiores novidades tecnológicas da época, além de ter uma vida social intensa. Esta vida faustosa e de busca do conhecimento, entretanto, começa a se tornar entediante para nosso herói, que já não vê mais graça em nada.

O panorama muda quando Jacinto resolve ir a Tormes - sua propriedade em Portugal - para sepultar em uma igreja os ossos de alguns antepassados. Para alcançar este objetivo, uma verdadeira operação de guerra é montada: não querendo ficar sem seu luxo urbano, Jacinto de Tormes resolve levar junto de si uma quantidade enorme de livros, roupas e acessórios diversos. Nada, entretanto, sai como previsto na viagem: a reforma na propriedade, que havia sido requisitada meses antes, não fora realizada e lá e o rico proprietário é obrigado a dormir numa casa em péssimo estado de conservação. A mudança se perde no caminho, e ele praticamente fica apenas com a roupa do corpo. O seu desespero é enorme.

Mas Jacinto acaba, aos poucos, se adaptando com a natureza exuberante de sua propriedade e, à medida que suas coisas vêm chegando de Paris, ele percebe que nada daquilo era assim tão importante para sua felicidade. Ele acaba se tornando um feliz fazendeiro, atuante na administração de sua propriedade e melhorando enormemente a vida de seus empregados.

Bem-humorado, com uma caracterização extraordinária dos personagens e com um profundo sentido moral, A cidade e as serras é um livro luminoso, que se lê com um permanente sorriso nos lábios. Estou plenamente convencido de que, agora, aqueles de livros de Eça de Queirós que eu não gostei merecem uma releitura - e, quando isto acontecer, tenho certeza que saberei responder a quem vier perguntar o que estou fazendo com um livro na mão.

 

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