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2:27 p.m. - 2005-01-10 A ditadura encurralada, de Elio Gaspari A ditadura brasileira começou no ano de 1964, com o golpe
militar (ou Revolução) de 31
de março. O primeiro presidente do período foi o general Castello Branco
(1964-1967), que fez uma ditadura pouco repressiva em comparação com seus
sucessores, generais Costa e Silva (1967-1968) e Médici (1969-1974). Com a
promulgação do AI-5 (Ato Institucional número 5) em 1968, a presidência da
República passou a contar com poderes extraordinários para reprimir a oposição:
isto, somado ao poder obtido por organizações militares e paramilitares de
direita, representou um nebuloso tempo de censura, repressão e tortura aos
opositores do governo. A abertura do regime militar começou no governo do
general Ernesto Geisel (1974-1978) e teve continuidade no último dos presidentes
da ditadura, João Baptista Figueiredo (1979-1984). Todo este turbulento período da vida nacional está sendo
brilhantemente dissecado em uma série de livros do jornalista Elio Gaspari: já
foram lançados A Ditatura Envergonhada, A Ditadura Escancarada,
A Ditadura Derrotada e A Ditadura Encurralada. Este último é o de
lançamento mais recente, e foi publicado neste ano pela Companhia das Letras
(524 páginas). A Ditadura Encurralada trata do período que vai de janeiro
de 1975 – quando Geisel, já com quase um ano no poder, decide parar de censurar
o jornal conservador O Estado de São Paulo – até outubro de 1977 - quando
o presidente demite o ministro do Exército, Sylvio Frota. Este período de quase três anos, muito bem descrito por Gaspari, foi repleto de turbulências políticas: manifestações contra a ditadura, a morte dos ex-presidentes João Goulart e Juscelino Kubitscheck, além do assassinato, por parte da linha-dura do regime, dos oposicionistas Manoel Fiel Filho e Vladimir Herzog, foram alguns dos acontecimentos mais importantes. Mas o ponto forte de A Ditadura Encurralada é a
descrição da guerra de bastidores ocorrida entre a linha-dura do regime -
militares e simpatizantes que queriam que o processo de abertura política fosse
simplesmente deixado de lado - e a chamada distensão – que, iniciada pelo
próprio presidente da República e que tinha no general Golbery do Couto e Silva
o seu maior líder dentro do governo, queria levar o país de volta à democracia
num processo lento, gradual e seguro. O leitor é conduzido a um verdadeiro
thriller, aonde o general Geisel pende ora para um lado, ora para outro,
conforme as conveniências do momento: não se pode esquecer que ele não poderia
“abrir demais” o regime - sob pena de revolta militar - e nem, claro, deixar a
abertura de lado. Segundo Gaspari, o principal inimigo a ser combatido por
Geisel já não era mais a subversão de esquerda – praticamente eliminada nos
mandatos dos presidentes anteriores – mas sim o chamado “porão” da ditadura:
militares de baixa patente que torturavam e reprimiam com total autonomia,
criando um verdadeiro poder paralelo que não se submetia nem mesmo à autoridade
do presidente da República. E foi com a difícil demissão de Sylvio Frota,
ministro do Exército e maior liderança entre os partidários da linha-dura, que
Geisel, finalmente, retomou seu poder constitucional. Com uma brilhante pesquisa (Geisel, já falecido, tinha inclusive sido entrevistado por muitas horas por Gaspari) e uma narrativa fluente e atrativa, A Ditadura Encurralada é um livro obrigatória para quem se interessa pela história brasileira daquele período.
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