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11:28 a.m. - 2004-12-14
A lira - solidão no oceano

Algumas Obsessões
Fabricio


A Lira - Solidão no Oceano

Fui ao mar
E não vi nada
Nem sequer
Onde estava
Só ouvia
A solidão
Da cantiga
Qu'eu cantava

E senti-me só no escuro...

Ai, Ai, Ai,
Ai, Ai, Ai,

-Onde está a alegria, que eu sonhava alcançar...

E lembrei porque partira...
Era o mar e a minha Lira

E senti-me só no escuro...

Ai, Ai, Ai,
Ai, Ai, Ai,

-Onde está a alegria, qu'eu sonhava alcançar...
Foi esquecida
Por amor
Que é tão grande
Que é melhor

(Pedro Ayres Magalhães, o líder do Madredeus)

 
Existem algumas músicas, intensamente dramáticas, que nos fazem perguntar qual é, afinal, o segredo de sua atração hipnótica. Comigo é freqüente, por exemplo, escutar até 20, 30 vezes seguidas um mesmo lied de Schumann ou de Schubert, ou uma ária de Bach: às vezes acabo escrevendo algo sobre a canção, um pouco como uma homenagem, um pouco como um modo de me livrar da obsessão.

Eu creio que fui um pouco injusto com o mais recente disco dos Madredeus, Movimento, neste texto. Atualmente acho que tudo o que o grande grupo português fez neste álbum foi procurar novos caminhos, e não tentar soar new age (deixa eu bater na madeira), conforme tinha defendido antes. Se, por um lado, eu não passei a gostar do cd inteiro depois de tanto tempo (ele foi lançado em 2001), por outro é praticamente impossível o Madredeus ter querido soar sem alma em Movimento. Isto por que se nota facilmente que a faixa 6 deste álbum é um monumento extraordinário da música: A Lira - Solidão do Oceano é uma canção tão dramática quanto uma ária de Bach, tão bela quanto um lied de Schumann.

A música começa com uma estrofe cantada praticamente em suspensão, que descreve a impotência da cantora ("Fui ao mar/ E não vi nada / Nem sequer / Onde estava") e a sua solidão ("Só ouvia / A solidão / Da cantiga / Qu'eu cantava"). Esta tristeza é seguida de escuridão ("E senti-me só no escuro...") e de uma série de Ais. Uma pequena pausa vem antes do primeiro ápice de dramaticidade: quando Teresa Salgueiro canta "-Onde está a alegria, que eu sonhava alcançar..." ela convence até uma pedra de que a sua alegria está irremediavelmente perdida - e para sempre. Depois disso, uma pequena volta ao tema musical em suspensão anterior ("E lembrei porque partira.../ Era o mar e a minha Lira "), à escuridão, e aos Ais. Finalmente a música chega no seu segundo ápice de dramaticidade, que inicia com o mesmo verso ("-Onde está a alegria, qu'eu sonhava alcançar..."); só que desta vez já se sabe o que aconteceu com a alegria: ela "foi esquecida / Por amor / Que é tão grande / Que é melhor". Não fica claro por que a alegria é esquecida por um amor tão grande e melhor. Mas nem importa. Neste momento já estamos completamente arrebatados.

Teresa Salgueiro canta esta música numa tonalidade acima daquela a que estamos acostumados: ela, que já tinha um tom agudo nos discos anteriores, chega quase a ferir nossos ouvidos com sua voz de soprano (o mais belo, como se sabe, nem sempre é o mais agradável). Tudo aquilo que já é normalmente dramático e dolorido no fado português parece multiplicado por mil na voz extremamente sincera da grande diva portuguesa. Além disso, a melodia (composta por Pedro Ayres Magalhães) e o arranjo feito pelos sintetizadores e pelos dedilhados dos violões são, também, belíssimos. É por isto que a primeira pergunta deste texto versava sobre o porquê de certas canções serem tão extraordinárias: em A Lira - Solidão do Oceano é a interpretação de Teresa Salgueiro, a letra, a melodia ou o arranjo o verdadeiro segredo do nosso arrebatamento?

Pensando bem, isto não importa nem um pouco.

 

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