Algumas Obsessões
Fabricio
Gritos e sussurros, de Ingmar
Bergman
Gritos e sussurros, de Ingmar Bergman, é um dos raros filmes
não falados em inglês a receber indicações para os Oscars de melhor filme e de
melhor diretor (em 1973). Isto faz pensar um pouco. O que faz um filme tão
profundamente intimista, não-hollywoodiano, concorrer a um Oscar?
Uma coisa que pode ter atraído a Academia são os figurinos e cenários.
Todo o filme, praticamente, é em vermelho, branco e preto. Os cenários são
basicamente em vermelho e a roupas em branco ou preto (há apenas uma externa, a
lancinante cena final).
Mas ainda é muito pouco. A Academia pode ter
gostado, então, das atuações das atrizes. Kari Sylwan é Anna, a criada que tem
um amor profundo e verdadeiro pela agonizante Agnes (Harriet Andersson). Suas
irmãs, a sensual Maria (Liv Ulmann) e a reprimida Karin (Ingrid Thulin) vieram
lhe fazer companhia em seus momentos finais. A interpretação das quatro é, como
se poderia esperar do grande diretor de atrizes Ingmar Bergman, profundamente
convincente. Mas é a atuação de Harriet Andersson que fica mesmo gravada na
memória.
Por outro lado, o uso de algumas técnicas pouco usuais em
Hollywood mesmo pode ter assustado a Academia. Durante todo o filme aparecem
insistentemente relógios - o tique-taque deles é a principal trilha sonora do
filme, o que nos faz lembrar do grande diretor Mário Peixoto (que dizia que o
relógio não fala mais um, mais um e sim menos um, menos um); a
agonia de Agnes é mostrada de forma extremamente naturalista: o expectador não é
poupado nem dos gritos de dor, nem dos vômitos: seu sofrimento é mostrada em
planos longos, lentos e chocantes; antes de muitas cenas o rosto assustado de
uma das atrizes é mostrado sob uma cor vermelha - vermelho este que vai tomando
conta completamente da tela, num efeito impressionante; e, finalmente, a
simbólica cena crucial do filme, onde Agnes, já morta, implora pelo carinho das
irmãs e é rejeitada.
Mas a grande qualidade de "Gritos e Sussurros", e é
o que provavelmente fez a Academia gostar do filme, é a história que ele conta.
Uma história de dor, sofrimento e amor profundo.
Karin é a mulher
frustrada de um marido frio, calculista e mau caráter. Cansada de mentiras, ela
chega a mutilar seus genitais para recusar o sexo com ele. Por causa do
casamento infeliz, ela tem profunda aversão ao contato com outros seres humanos
- ao contrário de sua irmã Maria, que usa o toque apenas com finalidades
sensuais (coisa que Karin dolorosamente descobre quando abre a guarda para a
irmã).
Na cena simbólica citada acima, uma Agnes agonizante implora pelo
carinho de suas irmãs - mas é atendida apenas pela criada Anna, que já havia lhe
dado o próprio seio para aquecê-la (o contato físico da empregada é
completamente puro, com nenhuma intenção senão o amor verdadeiro).
E é
no amor verdadeiro, afinal, que reside a grandeza de Gritos e Sussurros.
Afinal, além de Anna, Agnes também mostra-se capaz de amar profundamente. A
emocionante prece do padre diante do corpo morto dela é reveladora: ele pede
que, através de seu sofrimento, a falecida expie os pecados e interceda junto a
Deus em favor dos demais presentes - ele incluído. Depois da prece, ele acaba
revelando que, em suas longas discussões, a fé dela sempre tinha sido maior que
a dele mesmo. Na cena final a criada, que já havia sido deixada completamente
sem recursos pelo cruel marido de Karin (com a anuência silenciosa dos demais),
estava com a única lembrança de Agnes que lhe foi permitido ficar: seu diário.
Na página deste lida por Anna, Agnes agradecia a Deus pois - depois de muito
tempo - pôde passar momentos agradáveis com as pessoas que mais prezava: suas
irmãs e a criada.
A que mais sofreu era a mais agradecida a Deus. Quanto
às outras, seu próprio egoísmo as cegava. A Academia, que já havia premiado
filmes profundos e belos como Se meu apartamento falasse, de Billy
Wilder, ou Como era verde meu vale, de John Ford, deve ter gostado
disto.