Algumas Obsessões
Fabricio
O silêncio da bondade
Quem não conhece aquele sujeito aparentemente legal, sempre pronto a dar um
bom conselho, sempre pronto a fazer um belo discurso sobre consciência
tranqüila e boas ações mas que, na hora em que você precisa dele, se revela um
mau-caráter da pior laia?
Por outro lado, quem também não conhece o tipo
diametralmente oposto, aquele que é meio ríspido e antipático - ou então
debochado -, que jamais fala em bondade ou em bons sentimentos mas, que na hora
da necessidade, é o primeiro a esquecer das próprias conveniências e largar tudo
para ajudar o próximo?
Como se sabe, é de grande sabedoria conhecer a
personalidade alheia por atos e não por palavras. É freqüente que as
pessoas com más intenções disfarcem seus objetivos atavés de belos discursos -
mas vou ignorar este tipo de gente agora. O assunto aqui são dois filmes em que
a bondade, afinal, não se faz anunciar por palavras.
Em A liberdade é
azul (Trois couleurs: rouge. França, 1993), da famosa trilogia das
cores do diretor polonês Krzysztof Kielowski, Juliette Binoche interpreta
Julie, uma mulher que perde a filha e o marido - famoso compositor - num
acidente de trânsito. Ela tenta o suicídio, fracassa, e acaba fugindo de todos,
indo morar num prédio distante. Sua imensa dor não é aliviada por
lágrimas ou por desabafos. Ela vai ficando cada vez mais quieta, com a expressão
cada vez mais petrificada - numa grande caracterização de Juliette Binoche.
Ela deixa a imensa casa em que morava para familiares. No novo
apartamento em que mora lhe dão um abaixo-assinado: os vizinhos querem mandar
embora do prédio uma garota de programa - mas Julie se recusa a assinar. Em
outra ocasião ela sai à noite para ouvir os problemas desta mesma garota de
programa. Ela acaba ajudando a mulher que fora amante do seu marido - que estava
grávida deste. À medida em que o filme se desenvolve, Julie toma atitudes ainda
mais nobres, sempre com um rosto duro e frio - e praticamente sem falar.
Conhecemos a sua bondade apenas e tão somente por causa de suas ações e, por
isto, acabamos demorando um pouco para conhecer a real extensão de suas enormes
qualidades.
Os brutos também amam (Shane. EUA: 1953) é um
filme praticamente perfeito de George Stevens: o enredo extremamente bem
amarrado, os atores em grande forma, a ação dramática, tudo afinal concorre para
que este seja um clássico absoluto - um dos cinco melhores filmes de todos os
tempos, na minha modesta opinião.
No filme Alan Ladd faz Shane, um
pistoleiro solitário que se hospeda na casa de Joe Starret, pequeno proprietário
de terra que, como os demais nesta situação nas proximidades, é constantemente
ameaçado pelos latifundiários Ryker. Aos poucos os demais Starret - Marian, a
mãe, e Joey, o filho - começam a idolatrar o pistoleiro. Muitos acontecimentos
ocorrem durante a disputa entre os latifundiários e pequenos proprietários, até
que afinal Joe Starret é convidado para conversar com os Ryker num bar onde
estes costumam ficar. Shane acaba descobrindo que isto é uma armadilha, e briga
violentamente com Joe para que este não vá. O pistoleiro então vence a briga
contra Starret e vai arriscar, ele mesmo, o pescoço para salvar os pequenos
proprietários.
E é na escolha de Shane que reside a sua grandeza: ele
poderia simplesmente deixar Joe Starret caminhar para morte certa no duelo
contra o pistoleiro Jack Wilson - provavelmente o vilão mais assustador da
história dos faroestes no cinema, numa extraordinária interpretação de Jack
Palance - , contratado pelos Ryker. Se fizesse isto, ele poderia deixar de ser
errante, graças ao amor da mulher - cujo amor por Shane é mostrado de maneira
belissimamente sutil - e do filho de Starret. Mas não. Isto não seria
correto. Ponto.
Ninguém - a começar pelo próprio pistoleiro errante
- profere a palavra bondade para se referir a Shane durante todo o
filme.