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2:25 p.m. - 2004-12-14
O silêncio da bondade

Algumas Obsessões
Fabricio


O silêncio da bondade

Quem não conhece aquele sujeito aparentemente legal, sempre pronto a dar um bom conselho, sempre pronto a fazer um belo discurso sobre consciência tranqüila e boas ações mas que, na hora em que você precisa dele, se revela um mau-caráter da pior laia?

Por outro lado, quem também não conhece o tipo diametralmente oposto, aquele que é meio ríspido e antipático - ou então debochado -, que jamais fala em bondade ou em bons sentimentos mas, que na hora da necessidade, é o primeiro a esquecer das próprias conveniências e largar tudo para ajudar o próximo?

Como se sabe, é de grande sabedoria conhecer a personalidade alheia por atos e não por palavras. É freqüente que as pessoas com más intenções disfarcem seus objetivos atavés de belos discursos - mas vou ignorar este tipo de gente agora. O assunto aqui são dois filmes em que a bondade, afinal, não se faz anunciar por palavras.

Em A liberdade é azul (Trois couleurs: rouge. França, 1993), da famosa trilogia das cores do diretor polonês Krzysztof Kielowski, Juliette Binoche interpreta Julie, uma mulher que perde a filha e o marido - famoso compositor - num acidente de trânsito. Ela tenta o suicídio, fracassa, e acaba fugindo de todos, indo morar num prédio distante. Sua imensa dor não é aliviada por lágrimas ou por desabafos. Ela vai ficando cada vez mais quieta, com a expressão cada vez mais petrificada - numa grande caracterização de Juliette Binoche.

Ela deixa a imensa casa em que morava para familiares. No novo apartamento em que mora lhe dão um abaixo-assinado: os vizinhos querem mandar embora do prédio uma garota de programa - mas Julie se recusa a assinar. Em outra ocasião ela sai à noite para ouvir os problemas desta mesma garota de programa. Ela acaba ajudando a mulher que fora amante do seu marido - que estava grávida deste. À medida em que o filme se desenvolve, Julie toma atitudes ainda mais nobres, sempre com um rosto duro e frio - e praticamente sem falar. Conhecemos a sua bondade apenas e tão somente por causa de suas ações e, por isto, acabamos demorando um pouco para conhecer a real extensão de suas enormes qualidades.

Os brutos também amam (Shane. EUA: 1953) é um filme praticamente perfeito de George Stevens: o enredo extremamente bem amarrado, os atores em grande forma, a ação dramática, tudo afinal concorre para que este seja um clássico absoluto - um dos cinco melhores filmes de todos os tempos, na minha modesta opinião.

No filme Alan Ladd faz Shane, um pistoleiro solitário que se hospeda na casa de Joe Starret, pequeno proprietário de terra que, como os demais nesta situação nas proximidades, é constantemente ameaçado pelos latifundiários Ryker. Aos poucos os demais Starret - Marian, a mãe, e Joey, o filho - começam a idolatrar o pistoleiro. Muitos acontecimentos ocorrem durante a disputa entre os latifundiários e pequenos proprietários, até que afinal Joe Starret é convidado para conversar com os Ryker num bar onde estes costumam ficar. Shane acaba descobrindo que isto é uma armadilha, e briga violentamente com Joe para que este não vá. O pistoleiro então vence a briga contra Starret e vai arriscar, ele mesmo, o pescoço para salvar os pequenos proprietários.

E é na escolha de Shane que reside a sua grandeza: ele poderia simplesmente deixar Joe Starret caminhar para morte certa no duelo contra o pistoleiro Jack Wilson - provavelmente o vilão mais assustador da história dos faroestes no cinema, numa extraordinária interpretação de Jack Palance - , contratado pelos Ryker. Se fizesse isto, ele poderia deixar de ser errante, graças ao amor da mulher - cujo amor por Shane é mostrado de maneira belissimamente sutil - e do filho de Starret. Mas não. Isto não seria correto. Ponto.

Ninguém - a começar pelo próprio pistoleiro errante - profere a palavra bondade para se referir a Shane durante todo o filme.


 

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