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10:13 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
tradução:
Fabricio Muller Havia aqui
dois homens, que poderiam ser chamados Orestes e Pílades
(1)
de Bourbonne. Um se chamava Olivier, e outro Félix; nasceram no mesmo dia, na
mesma casa, e de duas irmãs. Tinham sido nutridos com o mesmo leite; isto
porque, tendo uma das mães sido morta no parto, a outra se encarregou das duas
crianças. Eles foram educados juntos; eram sempre separados dos outros;
amavam-se como se existe, como se vive, sem que houvesse dúvidas a respeito;
eles o sentiam a todo momento, e quem sabe não o tenham dito jamais. Olivier
tinha salvo uma vez a vida de Félix, que se vangloriava de ser um grande nadador
e que acabou se afogando: nem um nem o outro se lembravam disso. Cem vezes Félix
tirou Olivier de suas aventuras vergonhosas, onde seu caráter impetuoso o tinha
levado, e este jamais pensou em agradecer àquele: eles voltavam juntos para
casa, sem se falar, ou falando de outra coisa. Quando
começou a convocação para a milícia, e o primeiro bilhete fatal caiu sobre
Félix, Olivier disse: "o outro é para
mim". Eles completaram seu tempo de serviço militar; voltaram à terra
natal: se mais caros um ao outro do que anteriormente, é algo que eu não poderia
lhes assegurar: isto porque, querido irmão, se por um lado os benefícios
recíprocos cimentam as amizades racionais, por outro talvez não contribuam em
nada àquelas que eu chamaria de bom grado de amizades animais e domésticas. No
exército, durante um encontro, Olivier estando ameaçado de ter a cabeça rachada
por um golpe de sabre, Félix colocou-se maquinalmente diante do golpe e teve o
rosto cortado: dizem que ele tinha orgulho desta cicactriz; quanto a mim, não
acredito nisso. Em Hastembeck Olivier tinha tirado Félix do meio da multidão de
mortos, onde este tinha ficado. Quando eles eram interrogados, às vezes falavam
do socorro que tinham recebido, mas jamais dos que tinham recebido um do outro.
Olivier falava de Félix, Félix falava de Olivier; mas eles louvavam a si mesmos.
Ao fim de algum tempo em sua terra, eles amaram; e o acaso fez com que fosse a
mesma moça. Não houve entre eles nenhuma rivalidade; o primeiro que percebeu a
paixão do amigo se retirou: foi Félix. Olivier casou; e Félix, desgostoso da
vida sem saber por que, se precipitou em toda a sorte de negócios perigosos; o
último deles foi o de se tornar contrabandista. Você não
ignora, querido irmão, que existem alguns tribunais na França, Caen, Reims,
Valence e Touolouse, onde os contrabandistas são julgados; e que o mais severo
dos quatro é aquele de Reims, presidido por um chamado Couleau, a alma mais
feroz que a natureza jamais formou. Félix foi preso, as armas na mão, conduzido
diante do terrível Couleau, e condenado à morte, como quinhentos outros que o
precederam. Olivier soube da sorte de Félix. Uma noite, ele se levanta, do lado
de sua mulher e, sem lhe dizer nada, vai até Reims. Ele se dirige ao juiz
Couleau: se joga a seus pés, e lhe solicita a graça de ver e abraçar Félix. Couleau olha para ele, se cala um
momento, e lhe faz um sinal para que se sentasse. Olivier se
senta. Ao fim de
meia hora, Couleau tira seu relógio, e diz a Olivier: "Se você quer ver e
abraçar seu amigo vivo, corra, ele está a caminho; e se meu relógio está
funcionando bem, antes de dez minutos ele será enforcado". Olivier, transportado
de fúria, dá um soco violentíssimo na nuca do juiz Couleau, após o qual este se
estira quase morto; corre até a praça, chega, agride o carrasco, agride os
empregados da justiça, subleva a população, indignada com estas execuções. As
pedras voam; Félix, libertado, foge: Olivier se preocupa com sua saúde: mas um
soldado da polícia (2) lhe perfura o flanco sem que ele se perceba. Ele chegou na porta
da cidade, mas não pôde ir mais longe; charreteiros caridosos lhe deitaram numa
charrete, e o colocaram na porta de sua casa um instante antes que expirasse:
ele não teve senão o tempo de dizer à sua mulher: "Mulher, se aproxime, que eu
te abraço. Eu morro, mas o cicatrizado se salvou". Uma noite, em
que estávamos indo dar um passeio, conforme nosso costume, vimos diante de um
casebre uma mulher alta de pé, com os quatro filhos pequenos a seus pés; sua
postura triste e firme nos chamou a atenção, e nossa atenção chamou a sua. Após
um momento de silêncio ela nos disse: "Eis aí quatro crianças pequenas; eu sou a
mãe deles, e não tenho mais marido." Esta maneira altiva de solicitar a
comseração era bem apropriada para nos tocar. Nós lhe oferecemos nosso auxílio,
que ela aceitou com honestidade: foi nesta ocasião que nós
soubemos a história de seu marido Olivier e de seu amigo Félix. Nós falamos
dela, e eu espero que nossa recomendação não lhe terá sido inútil. Você sabe,
querido irmão, que a grandeza de alma e as altas qualidades são de todos os
tipos e de todos os países; que tal sujeito morre
obscuramente, não lhe faltando senão um outro teatro; e que não é necessário ir
até os Iroqueses (3) para encontrar dois amigos. No tempo em
que o salteador Testalunga infestava a Sicília com sua tropa, Romano, seu amigo
e confidente, foi pego. Ele era o lugar-tenente de Testalunga, e o segundo no
bando. O pai deste Romano foi detido e preso por outros crimes. Foi-lhe
prometido perdão e liberdade, desde que Romano traísse e denunciasse seu chefe
Testalunga. O combate entre o amor filial e a amizade jurada foi violento; mas
Romano pai persuadiu o filho a dar a preferência à amizade, pois sentir-se-ia
desonrado em dever a vida a uma traição. Romano se rendeu à opinião de seu pai.
Romano pai foi executado; e jamais as torturas mais cruéis puderam arrancar de
Romano filho a delação de seus cúmplices. Você desejou,
querido irmão, saber o que veio a ser de Félix: é uma curiosidade tão simples, e
o motivo dela é tão louvável que nós nos repreendemos um pouco por não a termos
tido. Para reparar esta falta, nós pensamos inicialmente no Sr. Papin, doutor em
teologia, e pároco de Sainte-Marie à Bourbonne: mas mamãe mudou de idéia; e nós
demos a preferência ao subdelegado Aubert, que é um bom homem, bem roliço, e que
nos enviou a seguinte narrativa, sobre a veracidade da qual você pode
contar. "O nomeado
Félix ainda vive. Fugitivo das mãos da justiça, ele se lançou nas florestas da
província, cujos meandros aprendeu a conhecer quando fazia contrabando,
procurando se aproximar pouco a pouco da morada de Olivier, cuja sorte
ignorava. "Havia no
fundo de um bosque, onde a senhora passeou algumas vezes, um carvoeiro cujo
casebre servia de asilo a este tipo de gente; era também o entreposto de suas
mercadoria: foi lá que Félix apareceu, não sem ter corrido o perigo cair nas
emboscadas da polícia, que lhe seguia os passos. Alguns de
seus associados tinham levado para lá a notícia de sua prisão em Reims; e o
carvoeiro e a carvoeira lhe haviam dado como justiçado, quando ele lhes
apareceu. "Eu vou lhe
contar a coisa conforme soube pela carvoeira, que faleceu aqui há não muito
tempo. "Foram os
seus filhos, que andavam em torno do casebre, que o viram inicialmente. Enquanto
ele se detinha a acariciar o mais jovem, do qual era padrinho, os outros
entraram no casebre gritando: 'Félix! Félix!' O pai e a mãe saíram repetindo o
mesmo grito de alegria; mas este miserável estava tão arrasado de fadiga e de
indigência que não teve força de responder, e tombou quase desfalecido nos
braços deles. "Estas boas
pessoas lhe socorreram com o que tinham, lhe deram pão, vinho e alguns legumes:
ele comeu e dormiu. "No seu
despertar suas primeiras palavras foram: 'Olivier! Crianças, vocês não sabem
nada de Olivier?' 'Não', elas responderam. Ele lhes contou a aventura de Reims;
e passou a noite e o dia seguintes com eles. Ele suspirava, pronunciava o nome
de Olivier; ele lhe supunha nas prisões de Reims; queria ir até lá,
queria ir morrer com o amigo; e não foi sem dificuldades que
o carvoeiro e a carvoeira lhe fizeram desistir deste
desígnio. "No meio da
segunda noite, ele tomou um fuzil, colocou um sabre sob seus braços; e, se
endereçando com voz baixa ao carvoeiro: 'Carvoeiro!' 'Félix!' 'Pegue sua
machadinha, e vamos.' 'Aonde?' 'Grande pergunta! Até Olivier.' Eles foram; mas,
saindo da floresta, ei-los cercados por um destacamento da polícia.
"Eu me baseio
no que me disse a carvoeira; mas é estranho que dois homens a pé pudessem lutar
contra uma vintena de homens a cavalo: aparentemente estes estavam esparsos, e
queriam pegar suas vítimas com vida. O que quer que seja, a
ação foi muito intensa; houve cinco cavalos estropiados e sete cavaleiros
esfaqueados ou apunhalados. O pobre carvoeiro quedou morto no local, devido a um
tiro na têmpora; Félix ganhou novamente a floresta; e como ele é de uma
agilidade incrível, corria de um local a outro; correndo, carregava seu fuzil,
atirava, assobiava. Esses assobios, esses tiros de fuzil, dados a diferentes
intervalos e em diferentes lados, fizeram os cavaleiros da polícia temerem que
houvesse lá uma horda de contrabandistas: então eles se retiraram
apressadamente. "Quando Félix
os viu distanciados, voltou ao campo de batalha; colocou o cadáver do carvoeiro
sobre suas costas e retomou o caminho do casebre, onde a carvoeira e seus filhos
ainda dormiam. Ele pára na porta, estende o cadáver a seus pés, e se senta, as
costas apoiadas contra uma árvore e o rosto dirigido para a entrada do casebre.
Eis o espetáculo que aguardava a carvoeira, assim que ela saísse de sua palhoça.
"Ela se
levanta, ela não encontra mais o seu marido a seu lado; olha por Félix, e nada
de Félix. Ela se levanta, ela sai, ela vê, ela grita, ela cai de costas. Seus
filhos a acorrem, eles olham, eles gritam, eles se rolam sobre o seu pai, eles
se rolam sobre sua mãe. A carvoeira, voltando a si devido ao tumulto e os gritos
de seus filhos, arranca seus cabelos, rasga as faces. Félix, imóvel ao pé de sua
árvore, a cabeça virada para trás, lhes dizia com uma voz enfraquecida:
'Mate-me.' Fez-se um momento de silêncio; após o que a dor e os gritos eram
retomados, e Félix lhes falava de novo: 'Matem-me; crianças, por piedade,
matem-me'. "Eles
passaram assim três dias e três noites se desolando; na quarta, Félix diz à
carvoeira: 'Mulher, pegue seu alforge, coloque pão nele e me siga'. Após um
longo circuito através de nossas montanhas e de nossas florestas, eles chegaram
na casa de Olivier, que é situada, como o senhor sabe, na extremidade da cidade,
no local onde a estrada se divide em duas, uma indo para Franche-Comté, e a
outra para Lorraine. "É lá que
Félix vai saber da morte de Olivier, e se encontrar entre as viúvas de dois
homens massacrados por sua causa. Ele entra, e diz bruscamente à sra. Olivier:
'Onde está Olivier?' Devido ao silêncio desta mulher, às suas vestes, às suas
lágrimas, ele compreendeu que Olivier não vivia mais. Ele se sentiu mal; caiu, e
abriu a cabeça contra o rolo de amassar pão. As duas viúvas o levantaram; o seu
sangue corria sobre elas; e enquanto elas se ocupavam a lhe estancar o sangue
com os seus
aventais, ele lhes dizia: 'e as senhoras são as mulheres deles, e me socorrem!'
Após o que ele desfaleceu, depois voltou a si, e dizia suspirando: 'Por que ele
não me deixou? Por que ir até Reims? por que deixá-lo vir?...' Então ele perdeu
a cabeça, se enfureceu, se rolou no chão e rasgou suas vestes. Em um desses
acessos tirou seu sabre e ia se atingir; mas as duas mulheres se jogaram sobre
ele, pediram socorro; os vizinhos acorreram: ele foi amarrado com cordas e
sangrado sete a oito vezes. Seu furor desapareceu com o esgotamento de suas
forças; e ele ficou como morto durante três ou quatro dias, ao fim dos quais sua
razão retornou. No primeiro momento ele vira os olhos em torno de si, como um
homem que sai de um sono profundo, e diz: 'Onde estou? Quem são as senhoras?' A
carvoeira lhe responde: ' Eu sou a carvoeira...' Ele retoma: 'Ah! sim, a
carvoeira... E a senhora?...' A mulher de Olivier se cala. Então ele começa a
chorar, se vira para a parede, e diz soluçando: 'Eu estou na casa de Olivier...
e esta é a cama de Olivier... E esta mulher que está aí, era a sua,
ah!...' "As duas
mulheres tiveram tanto cuidado com ele, lhe inspiraram tanta piedade, lhe
suplicaram tão instantaneamente para que vivesse, lhe mostraram de uma maneira
tão pungente que ele era a única fonte de recurso possível para a sobrevivência
delas, que ele deixou-se persuadir. "Durantre o
tempo em que ele ficou nessa casa não se deitou mais. Ele saía durante a noite,
errava nos campos, se rolava na terra, chamava Olivier; uma das mulheres o
seguia, e lhe trazia de volta no amanhecer. "Muitas
pessoas sabiam que ele estava na casa de Olivier, e entre estas havia aquelas
mal-intencionadas. As duas viúvas lhe advertiram do perigo que ele corria: era
uma tarde; ele estava sentado sobre um banco, o sabre sobre os joelhos, os
cotovelos apoiados sobre uma mesa, os dois pulsos sobre os dois olhos.
Inicialmente ele não respondeu nada. A mulher de Olivier tinha um rapaz de
dezoito anos, a carvoeira uma menina de quinze. De repente ele diz à carvoeira:
'Carvoeira, vá procurar sua filha, e a traga aqui...' Ele tinha algumas foices,
e as vendeu. A carvoeira volta com sua filha, o filho de Olivier casou com ela:
Félix deu-lhes o dinheiro de suas foices, beijou-lhes, pediu-lhes perdão
chorando: e eles foram se fixar no casebre onde estão até hoje, e onde eles
servem de pai e mãe às outras crianças. As duas viúvas foram morar junto com
eles e os filhos de Olivier tiveram um pai e duas
mães. "Há mais ou
menos um e meio a carvoeira faleceu; a mulher de Olivier a chora todos os
dias. "Uma noite em
que elas espiavavam Félix (porque uma das duas sempre o tinha em vista), o viram
desfazendo-se em lágrimas; ele virava em silêncio seus braços em direção à porta
que o separava delas, e se punha em seguida a fazer suas malas. Elas não lhe
disseram nada, porque elas compreendiam, de todo o modo, como a sua partida era
necessária. Eles jantaram, todos os três, sem pronunciar uma palavra. De
madrugada, ele se levantou; as mulheres não pregavam o olho; ele avançou em
direção à porta na ponta dos pés. Lá parou, olhou em direção à cama das duas
mulheres, enxugou os olhos com as mãos e saiu. As duas mulheres se apertaram nos
braços uma da outra, e passaram o resto da noite chorando. O local de refúgio
dele era ignorado; mas não houve praticamente nenhuma semana em que ele não lhes
enviou algum auxílio. "A floresta
onde a filha da carvoeira vive com o filho de Olivier pertence a um certo Sr.
Leclerc de Rançonnières, homem muito rico, e senhor de outra aldeia destes
distritos, chamado Courcelles. Um dia que o Sr. de Rançonnières ou de
Courcelles, como a Senhora preferir, caçava na sua floresta, chegou no casebre
do filho de Olivier; entrou, se pôs a brincar com as crianças, que eram bonitas;
ele lhes fez perguntas; o jeito da mulher, que não era ruim, lhe reveio; o tom
seguro do marido, que lembrava bastante seu pai, o interessou; ele soube da
aventura de seus pais, ele prometeu solicitar o perdão de Félix; ele o
solicitou, e o obteve. "Félix passou
ao serviço do Sr. de Rançonnières, que lhe deu um emprego de auxiliar de
caçadas. "Havia já em
torno de dois anos que ele vivia no castelo de Rançonnières, enviando às viúvas
uma boa parte de seus ganhos, quando o apego a seu patrão e a altivez de seu
caráter o envolveram numa disputa que não era nada em sua origem mas que teve as
conseqüências mais deploráveis. " O Sr. de
Rançonnières tinha por vizinho em Courcelles um certo Sr. Fourmont, conselheiro
no tribunal (4) de Ch...... As duas casas eram separadas apenas por uma cerca de
pedras; esta cerca atrapalhava do Sr. de Rançonnières, e tornava a entrada
difícil às carruagens. O Sr. de Rançonnières a fez recuar alguns pés na direção
do Sr. Fourmont; este recolocou a cerca do mesmo tanto sobre a propriedade do
Sr. de Rançonnières; e então seguiram-se ódio, insultos, um processo entre os
dois vizinhos. O processo da cerca suscitou dois ou três outros mais
consideráveis. As coisas estavam neste ponto quando, uma noite, o Sr. de
Rançonnières, voltando da caça acompanhado de seu guarda-costas Félix,
encontrou, na estrada principal, o Sr. Fourmont, o magistrado, e seu irmão, o
militar. Este diz a irmão: 'Meu irmão, o que você acharia se nós cortássemos o
rosto deste bugre?' Esta pergunta não foi entendida pelo Sr. de Rançonnières mas
infelizmente o foi por Félix, que, se dirigindo altivamente ao jovem, lhe diz:
'Prezado oficial, o senhor seria suficientemente corajoso para o dever de fazer
o que disse?' No mesmo instante ele coloca seu fuzil no chão, e coloca a mão
sobre a guarda de seu sabre, porque ele não andava jamais sem seu sabre. O jovem
militar desembainha sua espada, e avança sobre Félix; o Sr. de Rançonnières
acorre, se interpõe, apanha seu sabre. Enquanto isso o
militar toma o fuzil que estava no chão, atira em Félix, e erra; este replica
com um golpe de sabre, faz cair a espada da mão do jovem, e com a espada, a
metade do braço; e eis um processo criminal seguido de três ou quatro processos
civis. Félix confinado na prisão; um processo medonho; e, em seguida a este
processo, um magistrado despojado de seu posto e quase desonrado, um militar
excluído de sua corporação, o Sr. de Rançonnières morto de desgosto, e Félix,
cuja detenção durou todo este o tempo, exposto ao ressentimento dos Fourmont.
Seu fim teria sido desastroso se o amor não o tivesse socorrido; a filha do
carcereiro apaixonou-se por ele e facilitou sua evasão; se isto não é verdade,
pelo menos é o que diz a opinião pública. Ele foi até a Prússia, onde serve
atualmente no regimento de segurança pública (5).
Diz-se que ele é amado por seus camaradas, e até mesmo conhecido do rei. Seu
nome de guerra é O Triste; a viúva Olivier me disse que ele continua a
socorrê-la. "Eis,
senhora, tudo o que eu pude descobrir da história de Félix. Eu junto à minha
narrativa uma carta do Sr. Papin, nosso vigário. Eu não sei o que ela contém;
mas eu creio que o pobre padre, que tem a mentalidade um pouco estreita e o
coração bem transtornado, só lhe fala de Olivier e de Félix segundo suas
prevenções. Eu lhe suplico, senhora, de que se atenha aos fatos, sobre a verdade
dos quais a senhora pode contar, e à bondade do seu coração, que a aconselhará
melhor que o primeiro teólogo de Sorbonne, que não é o Sr.
Papin." CARTA DO SR. PAPIN,
DOUTOR EM TEOLOGIA, E VIGÁRIO DE SAINTE-MARIE À
BOURBONNE "Eu ignoro,
senhora, o que o Sr. Subdelegado pôde lhe contar sobre Olivier e Félix, nem qual
interesse a senhora pode ter em dois bandidos, que tiveram todos os passos nesse
mundo manchados de sangue. A Providência, que castigou um, esperou alguns
momentos pelo outro, os quais eu temo que ele não tenha aproveitado; mas que a
Vontade de Deus seja feita! Eu sei que existem pessoas aqui (e eu não me
espantaria nada que o Sr. Subdelegado estivesse entre eles) que falam desses
dois homens como se fossem modelos de uma amizade rara: mas o que é aos olhos de
Deus a mais sublime virtude, privada dos sentimentos da piedade, do respeito
devido à Igreja e a seus ministros, e da submissão da lei do soberano? Olivier
morreu na porta de sua casa, sem sacramentos; quando fui chamado para ir junto
de Félix na casa das viúvas, eu jamais pude tirar de lá outra coisa que não
fosse o nome de Olivier; nenhum sinal de religião, nenhuma marca de
arrependimento. Eu não tenho lembrança que este tenha se apresentado, uma vez
que fosse, ao tribunal da penitência. A Sra. Olivier é arrogante, e me faltou em
mais de uma ocasião; sob pretexto de que sabe ler e escrever, ela se crê em
estado de educar seus filhos; e eles não são vistos nem nas escolas da paróquia,
nem nas minhas instruções. Que a madame julgue, segundo estas informações, se
pessoas desta espécie são bem dignas de sua bondade! O Evangelho não cansa de
nos recomendar a comiseração pelos pobres; mas se dobra o mérito da caridade
quando existe uma boa escolha dos miseráveis; e ninguém conhece melhor os
verdadeiros indigentes que o pastor comum dos indigentes e dos ricos. Se Madame
me dignasse com a honra de sua confiança, eu empregaria talvez as marcas de sua
beneficência de uma maneira mais útil para os infelizes e mais meritória para
ela. "Seu, com
todo o respeito, etc." A Sra. de ***
agradeceu o Sr. Subdelegado Aubert por suas atenção, e enviou suas esmolas ao
Sr. Papin, com a carta que se segue: "Eu estou
muito agradecida, senhor, pelos seus sábios conselhos. Eu lhe confesso que a
história destes dois homens tinha-me tocado; e o senhor há de convir que o
exemplo de uma amizade assim tão rara estava bem feita para seduzir uma alma
honesta e sensível; mas o senhor me esclareceu, e eu percebi que era melhor
levar nosso socorro a virtudes cristãs e desafortunadas que a virtudes naturais
e pagãs. Eu rogo ao senhor que aceite a módica soma que lhe estou enviando, e
que a distribua segundo uma caridade mais esclarecida que a
minha. "Eu tenho a
honra de ser... , etc." Imagina-se
que a viúva Olivier e Félix não tiveram nenhuma parte nas esmolas da Sra. de
***. Félix faleceu e a pobre mulher teria perecido na miséria se não tivesse se
refugiado na floresta com seu filho primogênito, onde ela trabalha, apesar da
grande idade, e subsiste como pode ao lado de seus filhos e netos.
E então, há
três tipos de contos... Existem bem mais, você me diria... Em boa hora; mas eu
distingo o conto à maneira de Homero, de Virgílio, do Tasso, e eu o chamo de
conto maravilhoso. Nele a natureza está exagerada; a verdade é hipotética: e se
o contista preservou bem o modelo que escolheu, se o todo responde a este
modelo, tanto nas ações quanto nos discursos, ele obteve o gênero de perfeição
que a sua obra comportava, e você não tem mais nada a pedir. Entrando no seu
poema, você põe o pé numa terra desconhecida, onde nada se passa como naquela
que você mora, mas onde tudo se faz em grande escala como as coisas se fazem
pequenas no seu entorno. Há o conto agradável à maneira de La Fontaine, de
Vergier, de Ariosto, de Hamilton, onde o contista não se propõe nem a imitação
da natureza, nem a verdade, nem a ilusão; ele se lança nos espaços imaginários.
Diga a este autor: seja alegre, engenhoso, variado, original, mesmo
extravagante, que eu consinto; mas me seduza pelos detalhes; que o charme da
forma me faça esquecer sempre da inverossimilhança do fundo: e se o contista faz
o que você exige aqui, ele fez tudo. Há enfim o conto histórico, tal como é
escrito nas novelas de Scarron, de Cervantes, de
Marmontel... - Ao diabo o
conto e o contista históricos! é um mentiroso superficial e
frio... - Sim, se ele
não sabe fazer seu trabalho. Este se propõe a enganá-lo; ele está sentando no
canto da sua lareira; ele tem por objeto a verdade rigorosa; ele quer que
acreditem nele; ele quer interessar, tocar, puxar, emocionar, fazer arrepiar a
pele e correr as lágrimas; efeito que ele não consegue sem eloqüência e sem
poesia; um e outro exageram, superfaturam, amplificam, inspiram a desconfiança:
como fará este contista para enganá-lo? Vejamos. Ele respingará sua história com
pequenas circustâncias tão ligadas à coisa, com traços tão simples, tão naturais
e entretanto tão difíceis de imaginar que você será forçado a dizer a si mesmo:
realmente, isto é verdade: estas coisas não se inventam. É assim que se salvará
o exagero da eloqüência e da poesia; que a verdade da natureza cobrirá o
prestígio da arte; e que ele satisfará às duas condições que parecem
contraditórias, de ser ao mesmo tempo historiador e poeta, verídico e
mentiroso. Um exemplo
emprestado de uma outra arte tornará talvez claro o que eu quero dizer-lhe. Um
pintor executa sobre uma tela uma cabeça. Nela todas as as formas são fortes,
grandes, regulares, é o conjunto mais perfeito e mais raro. Eu experimento,
quando a vejo, respeito, admiração, pavor. Eu procuro nela o modelo na natureza,
e não o encontro; em comparação, tudo é fraco, pequeno e mesquinho; é uma cabeça
ideal; eu o sinto, eu digo a mim mesmo. Mas se o artista me fizer perceber na
frente desta cabeça uma pequena cicatriz, uma verruga em uma de suas têmporas,
um corte imperceptível no lábio inferior; e, de ideal que ela era, num instante
a cabeça se torna um retrato; uma marca de varíola no canto do olho ou ao lado
do nariz, e este rosto de mulher não é mais de Vênus; é um retrato de alguma de
minhas vizinhas. Eu direi então a nossos contistas históricos: suas figuras são
belas, se lhes agrada; mas falta nelas a verruga na têmpora, o corte no lábio, a
marca de varíola ao lado do nariz, que lhes tornaria verdadeiras; e como dizia
meu amigo Caillot: "um pouco de poeira sobre meus sapatos, e eu não saio do meu
camarote, eu volto ao campo." Atque
ita mentitur, sic veris falsa remiscet, Primo
ne medium, me ne discrepet imum. Horat. De Art. Poet.,
V, 159. E então um
pouco de moral depois de um pouco de poesia, isto vai tão bem! Félix era um
indigente que não tinha nada; isto também pode ser dito do carvoeiro, da
carvoeira e dos outros personagens deste conto; e conclua que em geral não se
pode haver amizades inteiras e sólidas senão entre homens que não têm nada. Um
homem então é toda a fortuna de seu amigo, e seu amigo é toda a sua. Daí a
verdade da experiência, que faz com que a infelicidade estreite os laços; e a
matéria de um pequeno parágrafo a mais para a primeira edição do livro
d'O
Espírito. _____________________________________________________________________ (1) personagens da peça Electra, de Sófocles. (voltar ao
texto) (2)
polícia de
maréchaussé no original (maréchaussée é uma palavra que poderia ser
traduzida como "marechalato"). Esta polícia de maréchaussé foi extinta em 1790 e
substituída pela que existe até hoje. No restante do texto, sempre que for
utilizado o termo polícia, será
subentendido que é da polícia de
maréchaussé que se trata. (voltar ao
texto) (3) tribo indígena norte-americana. (voltar ao
texto) (4) présidial no
original: este présidial, extinto
em 1791, é o correspondente ao atual tribunal de primeira instância. (voltar ao
texto) (5)
regimento des
Gardes no original. Estes regimentos, utilizados na segurança
pública, chegaram a participar de guerras. (voltar ao
texto)
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