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11:26 a.m. - 2004-12-14
Diálogo imaginário com o autor de Almas Mortas

Algumas Obsessões
Fabricio


Diálogo imaginário com o autor de Almas Mortas

Diálogo imaginário com o autor de Almas Mortas

- Gógol, vai lá comigo.

- Eu? Mas eu sou um escritor do sec. XIX e você está aí no sec. XXI.

- Não importa.

- Pensando bem, você tem razão. Você quer que eu vá aonde?

- Esperar minha mulher na saída do serviço dela.

- Fazer o que lá?

- Quero que você conheça um sujeito que sempre vai lá esperar a mulher dele.

- É seu amigo?

- Não mesmo. Odeio o cara.

- O que ele te fez?

- Nada, nem sei o nome dele.

- Então por que que você o odeia?

- Ah, Gógol. Só vendo o sujeito. Um metro e oitenta, por aí, magro, moreno. O cabelo do sujeito não tem um só fio fora do lugar. A camisa, impecavelmente engomada.

- Até aí não vi nada demais.

- Precisa ver o ar de superioridade do sujeito. A maneira com que ele encara os demais. Ele anda desfilando! Ridículo. Patético.

- Ah, vai ver ele é uma espécie de gênio ou coisa assim...

- Você tá brincando comigo, né? Você é o Gógol, autor de Almas Mortas. Quero que você vá lá e acabe com o sujeito. Quero que você faça uma descrição dele como você fez do mentiroso e patife Nozdriov, do desconfiado e glutão Sobakêvitch, do medíocre Manílov, do sovina patológico Pliúchkin. Quero que você destrua o cara, que você o desmascare completamente, no seu modo ácido e debochado.

- A idéia até que não é má. Aliás, obrigado pelos elogios. Pena que eu endoidei e queimei a segunda parte do livro, né? 

- Sem problemas. O que ficou é genial. Aliás, ainda não terminei de reler o livro. Parei no meio, com pena de terminá-lo.

- Obrigado de novo. Mas voltemos ao sujeito. Será que ele não é uma espécie de gênio? Às vezes eles têm esse arzinho de superioridade mesmo...

- Ah, não me faça rir. Conversei com ele uma vez. Uma mediocridade absoluta. É só empáfia mesmo. Então, entusiasmado?

- Francamente, gostei da idéia. Era bom conversarmos com ele, né?

- Bem, nesse caso você vai sozinho. Eu não falei mais com o sujeito depois que conversei com ele aquela vez. Na verdade, fiquei um tempo sem aparecer por lá e esqueci o rosto do camarada. Agora ele deve me achar o maior antipático - no que não deixa de ter razão, se você pensar bem.

- Então eu vou lá e puxo papo com ele? Meio esquisito. Eu queria mesmo é ver o sujeito numa situação comum. Conversando comigo é bem provável que ele não se sinta à vontade, e que não seja completamente babaca.

- Mas ele pode querer aparecer mais do que o normal, não é? Não se esqueça de que Tchítchicov, o personagem principal de Almas Mortas, ia conhecendo os personagens à medida em que você os ia destruindo com a sua pena devastadora.

- É, também tem isso. Vou tentar puxar papo com ele. Depois te conto como foi.


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 - Parabéns!

- E daí, gostou?

- Gostei não: adorei!

- Eu falei que aquele sujeito era um achado.

- Mais do que isso. Gostei dele.

- Gostou dele?

- Sim, adorei!

- Explique-se. Aquele sujeito é repulsivo.

- Seguinte: eu diria que ele é o babaca arquetípico. Você reparou que ele não faz nenhuma força para ser do jeito que é?

- Como assim?

- Nenhuma força. Ele é um sujeito tranqüilo. Ele não tenta ser o que não é. Ele é aquilo mesmo: medíocre, com uma alta opinião acerca de si mesmo, incapaz de enxergar além do próprio umbigo ou dos preconceitos de classe.

- De que classe ele é?

- Você sabe melhor que eu. A tal burguesia curitibana. Conversei bastante com ele.

- Você deve estar mais preparado que eu para falar do sujeito. Não conheço muitas pessoas assim. Só reparo no arzinho deles. E naquele sotaque ridículo.

- Estou mais preparado que você sim. Sem contar que sou infinitamente melhor como escritor.

- É por isso que te chamei!

- Bem, é isso. Gostei da dica. Logo você terá mais novidades. Você tem mais alguém para eu destruir?

- Ah, eu conheço um jornalista. Mas deixa pra lá.

- Por quê?

- Ah, isso dá uma confusão dos diabos!

- Ok. Abraços, e obrigado.


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E, claro, o meu Gógol imaginário não me mandou a descrição dele do meu personagem. O que mais vocês estavam esperando?

 

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