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10:22 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
I - A Berma Era enorme a expectativa do
Narrador ao assistir a Berma pela primeira vez. Como tinha saúde frágil, seu
médico o tinha proibido a ida ao teatro - esta proibição acabou quando o
influente embaixador M. de Norpois recomendou que ele fosse assistir a Berma
interpretando Fedra, a peça clássica de Racine. O Narrador, esclareçamos
agora, é quem conta a história em primeira pessoa no romance Em Busca do
Tempo Perdido: ele é comumente chamado assim porque
praticamente não se nomeia durante o livro (1), uma
das obras-primas da literatura universal. O Narrador, importante ressaltar, é
grandemente baseado no próprio autor da obra, de forte conotação autobiográfica,
Marcel Proust. Voltando à história: após uma longa
expectativa, finalmente o Narrador foi ver a peça - uma decepção. Ele esperara
tanto por aquele momento, a Fedra interpretada pela Berma (2) parecia-lhe um ápice artístico inigualável - mas, quando
finalmente o espetáculo começou, o Narrador simplesmente não conseguiu notar o
que havia de tão diferente entre a Berma e os demais atores. Mais tarde, ouvindo
um comentário aqui e outro ali, somado à enorme atenção que tivera na atuação da
atriz, o Narrador acabou quase se convencendo da grande interpretação dela (3). Anos mais tarde o Narrador tem
novamente oportunidade de assistir a Berma representando Fedra (4).
Desta vez, ao contrário da primeira, ele não tinha praticamente nenhuma
expectiativa - mas finalmente entendeu a grandeza da atriz. O desempenho desta
tinha se tornado tão transparente, tão cheio do que interpreta, que ela
não se via mais a ela própria e a artista não era mais que uma janela
que dá para uma obra-prima. A interiorização da artista era tão profunda e
completa que não se notavam as intenções da artista, nem em inflexões de voz nem
em mímica, ao fazer o papel - era como se a Berma fosse a própria Fedra (5). O
Narrador, ao contrário da primeira vez em que a vira interpretar o papel, não
queria mais imobilizar as atitudes da Berma, (...), nem fazer com que
dissesse cem vezes o mesmo verso. Finalmente ele compreendia que não se
podia exigir isto da atriz, já que aquele encanto esparzido de vôo sobre um
verso, aqueles gestos instáveis perpetuamente transformados, aqueles quadros
sucessivos eram o resultado fugitivo, o fim momentâneo, a móvel obra-prima que a
arte teatral se propunha, e à qual destruiria, querendo fixá-la.
Depois da Fedra, o programa
previa que a Berma atuasse em outra peça, desta vez de um autor moderno. O
Narrador tinha dúvidas sobre se a grandeza da atriz não residia em grande parte
no texto de Racine, mas estas acabaram assim que nova peça começou. Seu
desempenho foi novamente sublime: tanto nas frases do dramaturgo moderno como
nos versos de Racine, a Berma sabia introduzir aquelas vastas imagens de dor, de
nobreza, de paixão, que eram as obras-primas dela própria e em que a
reconheciam, como se reconhece um pintor em retratos que pintou segundo modelos
diferentes. II - Fernanda
Montenegro A interpretação de Fernanda
Montenegro no belo filme Central do Brasil, de Walter Salles Jr. foi de
um sucesso de crítica espantoso - chegou a concorrer ao Oscar de melhor atriz,
numa rara concessão a um filme não falado em inglês. Fui assisti-lo com grande
expectativa - mas a minha decepção foi aumentando à medida que o filme
transcorria. O que tinha de tão espetacular a sua interpretação? Eu não estava
conseguindo entender. Fernanda Montenegro faz o papel de
Dora, uma mulher de caráter duvidoso e que sobrevive escrevendo, no Rio de
Janeiro, cartas ditadas por imigrantes para serem enviadas a seus parentes que
ficaram no Nordeste. Em grande parte das vezes, ela promete a seus clientes que
vai mandar as cartas mas não as manda, ficando com o dinheiro dos selos. Na
verdade, pensava eu, não havia nada de tão extraordinário naquela mulher
pobre, aproveitadora, porém não de todo má. Neste ponto, em torno do meio do
filme, é que entendi o segredo de Fernanda Montenegro: era como se ela fosse
a própria Dora. Não havia a menor teatralidade em seus gestos, em seu falar,
em seus modos. Até a sua maneira de sentar era a de uma mulher do povo. As
características que muitas vezes são relacionadas a uma grande interpretação,
como grandiloqüência e dramaticidade, estavam completamente ausentes de sua
interpretação minimalista e enormemente autêntica (6). Para completar o paralelo entre a
Berma e a maior atriz brasileira, eu teria de comentar a sua atuação numa peça
clássica. Ironicamente, eu realmente assisti a Fedra interpretada pela
Fernanda Montenegro há muitos anos, no Teatro Guaíra em Curitiba. A peça me
impressionou grandemente, mas é tudo o que lembro para que possa comentar aqui.
Fico então com as palavras de Millôr Fernandes (7):
o papel [de Fedra] lhe cabe como uma luva. Imagem aliás absolutamente
imprópria numa época em que ninguém mais usa
luvas. Para terminar, só lamento não ser o
Marcel Proust, para descrever a interpretação de Fernanda Montenegro em
Central do Brasil conforme ela realmente merece.
P.S.: Depois de ter terminado o
texto acima, assisti Wilde, filme de 1997 do diretor Brian Gilbert sobre
o grande escritor irlandês do final do século XIX. Stephen Fry, o ator que vive
o protagonista, tem uma atuação estupenda, profunda e cheia de nuances.
A decisão do roteirista, que
privilegiou um retrato realista e completo de Oscar Wilde - não dando portanto
destaque excessivo a seus ditos espirituosos (o que poderia ter tornado o filme
tendencioso e exagerado), permitiu a Fry a possibilidade de atuar de maneira
totalmente natural, muito distante da caricatura. Como em Central do
Brasil, em Wilde se assiste o filme como se o protagonista fosse o
próprio escritor, e não um ator fazendo o seu trabalho. ________________________________________________________________________________________ (1) outros
personagens chamam o Narrador de Marcel uma ou duas vezes durante todo o
romance, que tem sete volumes. Cito isto de memória. (voltar ao
texto) (2) personagem
baseado na grande atriz Sarah Bernardt (voltar ao
texto) (3) neste ponto o
Narrador escreve: "É verdade", pensava eu, "que bela voz, que ausência de
gritos, que simplicidade de vestuário, que inteligência em haver escolhido
Fedra! Não, não fiquei decepcionado". A parte engraçada deste trecho
é que o Sr. de Norpois acabara de fazer estes mesmos comentários. (voltar ao
texto) (4) a descrição
da primeira vez em que ele assiste a Berma atuando em Fedra é no segundo
volume de Em Busca do Tempo Perdido, À sombra das Raparigas em
Flor. A segunda vez é no terceiro volume, O Caminho de Guermantes.
(voltar
ao texto) (5) nas belas
palavras de Proust, o espectador tomava [a interpretação da atriz] não
como um acerto da artista, mas como um dado de vida. (voltar ao
texto) (6) a sua
interiorização para compor o personagem era tão estupenda que eu mesmo já estava
pensando nela realmente em termos de Dora, e não de Fernanda Montenegro. (voltar ao
texto) (7) escritas na
introdução da sua tradução de Fedra, que pode ser obtida em seu site oficial (http://www.uol.com.br/millor) (voltar ao
texto)
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