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10:30 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Nesta página eu tentei fazer uma análise de artistas que cantam com esta coisa meio impalpável que se costuma chamar de alma – eu defendia que, por exemplo, Morrissey, Eminem, Elvis Presley e John Lennon devem boa parte de seu sucesso perene ao fato de que eles, no mínimo, parecem sinceros quando cantam. O assunto aqui é um pouco diferente e, de certa forma, ainda mais impalpável. Eu vou tratar de três cantores que, mais do que cantar com alma, deixam a música fluir por eles. O primeiro deles é Lightnin' Hopkins, um negro nascido em 1912 no Texas e falecido em 1982 no mesmo estado norte-americano. Considerado um dos maiores bluesman de todos os tempos, Hopkins teve a chance que Robert Johnson não teve: viveu bastante e conseguiu gravar uma vasta obra, tanto com composições próprias quanto de outros compositores – além de uma grande quantidade de blues improvisados. Depois vem Snoop Dogg (que se chamava Snoop Doggy Dogg no início da carreira), um rapper de voz anasalada nascido em 1972 na Califórnia. Tanto nos seus próprios discos quanto em participações em álbuns de outros rappers, seus temas são quase sempre os mesmos: a violência de gângsters (daí o seu estilo chamar-se gangsta rap), a glorificação do uso da maconha, tudo isso aliado a uma forte misoginia, onde as mulheres quase sempre não passam de objetos para o prazer pessoal. Não é à toa que ele seja tão criticado. Finalmente chegamos ao brasileiro Zeca Pagodinho, sambista de primeira linha nascido em 1959 no Rio de Janeiro e que hoje é praticamente uma unanimidade nacional, tanto em termos de crítica quanto de público. Qual o segredo dos três? A facilidade no cantar; o fato deles conseguirem obter grande resultados com um mínimo de esforço. São simples, diretos, relaxados, mas extremamente eficientes (não seria um absurdo comparar o seu estilo na música com o de Romário no futebol). A música flui com grande facilidade, como se ela fosse um ser vivo à parte e se servisse dos três para poder se expressar - além disso, é como se este processo fosse até mesmo independente da vontade de Lightnin' Hopkins, de Snoop Dogg ou de Zeca Pagodinho. Agora começam as teorias. Parece haver algo de correto em se dizer que a sua facilidade de expressão seja conseqüência dos três cantarem ritmos de negros - é difícil imaginar um rock tão gingado, por exemplo - ou do uso do álcool (casos de Hopkins e Zeca Pagodinho) ou da maconha (Snoop Dogg). Estas teorias, entretanto, se chocam com a realidade de que a maior parte do negros e dos usuários de bebidas ou drogas não têm tanto suíngue. Pouco importa. O importante é sentar num sofá confortável e tentar relaxar um pouco ouvindo estes três cantores de estilos tão diferentes, mas com enormes qualidades em comum.
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