|
|
|
2:49 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Franz Kafka escreveu Carta ao pai em 1919, aos 36 anos, como uma forma de responder ao seu pai, Hermann Kafka, que tinha lhe perguntado por que o filho afirmava ter medo dele (*). A carta, que nunca foi enviada ao pai, é longa (tem quase 70 páginas) e é tão impressionantemente bem-escrita que acabou virando uma peça literária independente. O filho descreve friamente a sua conturbada relação com o pai. Este era agressivo, barulhento, injusto. Vivia dizendo para os filhos que estes que nunca sofreram para ter uma boa posição social como ele tinha sofrido - como se eles tivessem culpa alguma culpa nisto, é o que Franz responde. Bajulava as pessoas com posição superior e humilhava os empregados. Pedia que os filhos tivessem bons modos à mesa, mas ele mesmo não os tinha. Não era um seguidor exemplar do Judaísmo, mas obrigava que Franz o fosse. Tinha terríveis acessos histéricos quando brigava com os filhos - o que aterrorizava sobremaneira o autor de Carta ao pai. Achava que sempre tinha a opinião correta a respeito de tudo - enquanto que o restante do mundo tinha sempre a opinião errada. E, por último mas não menos importante, não dava nenhuma importância para o desejo de Franz de ser um escritor. A carta seria absolutamente comum se Kafka ficasse o tempo todo se fazendo de vítima. Mas não: ele reconhece que o pai gostava dele - isto não só é declarado explicitamente, como fica implícito, praticamente, o tempo todo. Mais do que isto, ele declara que suas irmãs Ottla e Elli tinham relações muito piores com o pai do que ele mesmo tinha. Em certos momentos, Kafka dá a impressão de ser um escritor fazendo ficção, tão imparcial é sua missiva. E é exatamente aí que Carta ao pai dá uma sensação desagradável ao leitor. Quando escreveu o texto Kafka já era o autor das obras-primas A Metamorfose e O Processo. Ele escreve de maneira tão fria que, de certo modo, dá a impressão de ter resolvido - interiormente - sua conturbada relação com o pai. Se isto realmente ocorreu, fica a dúvida: havia mesmo a necessidade dele ter escrito a carta? Seu desejo não pode ter sido, simplesmente, se vingar do pai? Um trecho particularmente impressionante da missiva inclusive, onde Kafka escreve que sempre lhe vem a imagem do pai deitado sobre o mapa-múndi - significando que simplesmente não havia fuga possível para ele, Franz - é de um impacto tão grande que é difícil não imaginar que o escritor tcheco não tivesse pensado em termos literários quando o escreveu. É virtualmente impossível saber quais as reais intenções de Kafka ao escrever Carta ao pai. O que fica para o leitor é a sensação de que sua personalidade era complexa demais, contraditória demais. Mas as coisas podem ter sido muito mais simples do que isto: eu posso estar sendo simplesmente injusto e Franz Kafka (por mais maduro e espetacular escritor que tenha sido), na sua essência, talvez não passasse de uma criança desprotegida. _____________________________________________________________________ (*) outro motivo imediato da elaboração de Carta ao pai foi a proibição, por parte do pai, de que Franz casasse com Julie Wohryzek, pois esta tinha origem humilde - era filha de um zelador numa sinagoga de Praga.
|