Algumas Obsessões
Fabricio
Os cientistas de Hitler: ciência, guerra e o
pacto com o demônio
Fatos. Muitos fatos. Centenas de fatos. Tantos fatos que a leitura
de Os cientistas de Hitler: ciência, guerra e o pacto com o demônio, de
John Cornwell (tradução: Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Editora Imago, 2003.
472pp) cansa bastante.
Nem sei por que esperava outra coisa: um livro de
472 páginas que pretende descrever toda a ciência alemã da época do nazismo
teria que tratar de vários assuntos mesmo, e todos rapidamente. Mas isso nem é
tudo, já que Joseph Cornwell é ainda mais extensivo do que sugere o título: ele
só chega no período nazista na página 119; e da página 341 em diante o livro
trata do pós-guerra. Definitivamente o objetivo do autor era grandioso, e não se
pode, em sã consciência, dizer que ele não o tenha atingido.
A
introdução chama-se Entendendo os alemães: como uma país tão desenvolvido
e civilizado chegou na barbárie nazista? Ao invés de grandes teorias que tratam
de tudo, Joseph Cornwell, desde o início, concentra-se quase que
unicamente na ciência - e sempre que o assunto é este, o autor não nota assim
uma diferença tão fundamental entre cientistas aliados ou nazistas.
Então começam os fatos. Na primeira parte são descritos: as estranhas
idéias científicas do diletante Hitler; como os alemães eram os maiores do
mundo, antes da Primeira Guerra Mundial, em vários campos da ciência -
notadamente na química (é apresentada uma descrição do uso de gases venenosos
naquela guerra); a origem e o desenvolvimento da racista "ciência" da higiene
racial; de que maneira, bem antes de Hitler, os alemães já pensavam em termos de
melhorar a espécie, eliminando ou esterilizando deficientes.
A
segunda parte trata da ciência entre-guerras, com o início das idéias nazistas
que consideravam a relatividade uma física de judeus.
A terceira parte
vai do início do governo de Hitler até o começo da guerra. Entre os principais
assuntos tratados destacam-se: as demissões dos cientistas judeus, que
desfalcaram profundamente a ciência alemã; o início do programa de foguetes não
tripulados, que vieram a aterrorizar Londres durante a guerra; como alguns ramos
da medicina evoluíram a contento sob Hitler, notadamente o controle do câncer;
de que forma a ciência Geopolítica foi criada, e como ela foi usada para
defender a abominável teoria do Espaço Vital - Lebensraum; a
criação das absurdas matemática nazista e física nazista; quais as esdrúxulas
idéias sobre ciência Himmler, o chefe das S.S.
Nas partes quatro a seis
de Entendendo os alemãs o assunto é o período da guerra: as novas
tecnologias belicosas; o desenvolvimento dos radares e dos incríveis códigos
secretos dos alemães, que eram tão complexos que pareciam inexpugnáveis - apenas
pareciam; como os cientistas alemães - inclusive Von Braun, que depois
veio a ser o criador do Projeto Apolo da NASA - utilizaram trabalho escravo em
suas experiência; os pavorosos experimentos com seres humanos, perpetrados pelos
médicos nazistas. Importantíssima nesta parte do livro é a descrição da corrida
à bomba atômica: de que forma os aliados chegaram lá, e os alemães não. Segundo
Cornwell, o grande físico Heisenberg não foi o herói que retardou
conscientemente o programa atômico nazista: ele simplesmente era teórico demais
- além de se dispersar em diversas outras atividades - para chegar neste
objetivo.
Na sétima parte o autor descreve o que aconteceu com os
grandes cientistas alemães no pós-guerra: os que foram para o lado aliado
acabaram tendo carreiras bem mais brilhantes do que aqueles que acabaram ficando
com os russos.
Finalmente, no trecho final de Os Cientistas de
Hitler o autor discute a ética atual dos cientistas. Bem resumido - e
tentando evitar uma resenha tão cansativa quanto o livro -, Joseph Cornwell
conclui que os cientistas estão errados quando acham que a ciência é pura e
totalmente desvinculada do que o que os outros - população e governantes
- vão fazer com a suas descobertas (por exemplo, clonagem, transgênicos, novas
bombas).
Está mais do que na hora de que os cientistas saibam que não há
ciência sem responsabilidade, conclui Cornwell - e eu não poderia deixar de
concordar, claro.