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4:07 p.m. - 2004-12-14
Madredeus, o amor infinito

Algumas Obsessões
Fabricio


Madredeus, o amor infinito

O Madredeus vinha tendo uma carreira absolutamente sem retoques até Ainda, de 1995 - excetuando, quem sabe, o primeiro disco da banda, Os Dias da Madredeus, de 1986 (muito mais devido à gravação precária do que a qualquer outra coisa). Em O Paraíso, de 1998, o grupo sofre uma profunda mudança interna: saem o violoncelo de Francisco Ribeiro e o acordeão de Gabriel Gomes e entra uma guitarra baixo acústico, a cargo de Fernando Júdice - com isto, o som ficou menos cheio e caloroso e passou a ter uma sonoridade mais "dedilhada". A formação da banda, que não mais se modificou, passou a contar com dois violões, baixo, sintetizador e a impressionante voz de Teresa Salgueiro. Foi uma decisão arriscada do grupo liderado pelo violonista e compositor principal Pedro Ayres Magalhães - mas deu certo. Algumas das melhores músicas já gravadas pelo Madredeus, como Coisas Pequenas, Não Muito Distante e Haja o Que Houver são de O Paraíso - mas neste, em faixas como Os Dias são à Noite e À Margem, já se percebem alguns defeitos que, somados a outros ainda (por exemplo, influência new age), vieram a comprometer decisivamente a qualidade do disco de estúdio posterior, Movimento, de 2001: uma certa fragilidade temática, um pouco de falta de rumo misturada com outro tanto de presunção (mas sejamos justos: Movimento tem pelo menos uma obra-prima, A Lira – Solidão no Oceano).

Foi, portanto, um tanto temeroso que fui ouvir o novo disco de composições inéditas do Madredeus (no interregno que se seguiu ao lançamento de Movimento foram colocados no mercado um disco ao vivo com orquestra e outro de remixes, Madredeus Electronico), Um Amor Infinito - lançado na mesma data do lançamento de You Are The Quarry, de Morrissey. Com algumas audições já pude perceber que meu maior temor, o de que a banda tinha definitivamente perdido o rumo, era infundado; mas a minha esperança, a de que a banda voltasse a ser o que era, também não se cumpriu: Um Amor Infinito é um disco tranqüilo, sereno, agradável de ouvir e, mesmo, com momentos brilhantes - mas muito distante das alturas inimagináveis que eles atingiram em O Espírito da Paz, de 1995, ou no duplo ao vivo Lisboa, de 1992.

As melhores faixas do disco são a dramática Cantador da Noite; a pungente Ó Luz da Alegria; as reflexivas Reflexos do Ouro e Suave Tristeza; Às Vezes, que parece saída de um dos dois excelentes discos de 1995 da banda, O Espírito da Paz e Ainda; e a singela Palavras Ausentes. Todas elas grandes músicas do Madredeus - se você conhece e gosta deles, sabe do que eu estou falando.

Mas ser resenhista é meio espinhoso às vezes: o álbum Um Amor Infinito tem muitas faixas fracas, e não dá para fugir desta verdade. Uma Estátua, Um Amor Infinito (a canção) e Os Males do Mundo são mornas, sem atrativos - você ouve e logo esquece que ouviu. Em Moro em Lisboa Teresa Salgueiro canta de uma maneira estranha, desajeitada - e a letra é boba: "que outra cidade / levantada sobre o mar / (...) / entre dois braços de água / água doce / água salgada". Vislumbrar - O Canto Encantado tem lá seus momentos, mas o que é aquela orquestração, e o que é aquele canto falado da maior cantora portuguesa da atualidade? O Olival é um instrumental meio sem sentido - mas é em Ao Crepúsculo que a coisa pega mesmo: não há mesmo nada que preste nesta canção.

Em resumo, Um Amor Infinito é um disco totalmente irregular - obrigatório para fãs, claro, mesmo porque os bons momentos são muitos. Mas se você não conhece os Madredeus, procure por O Espírito da Paz, Lisboa ou alguma coletânea (tem uma muito boa da Som Livre chamada Palavras Cantadas): se você gosta de música tranqüila - mas com alma -, você não vai se arrepender.

 

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