Algumas Obsessões
Fabricio
Madredeus, o amor infinito
O Madredeus vinha tendo uma carreira absolutamente sem retoques até
Ainda, de 1995 - excetuando, quem sabe, o primeiro disco da banda, Os
Dias da Madredeus, de 1986 (muito mais devido à gravação precária do que a
qualquer outra coisa). Em O Paraíso, de 1998, o grupo sofre uma profunda
mudança interna: saem o violoncelo de Francisco Ribeiro e o acordeão de Gabriel
Gomes e entra uma guitarra baixo acústico, a cargo de Fernando Júdice - com
isto, o som ficou menos cheio e caloroso e passou a ter uma
sonoridade mais "dedilhada". A formação da banda, que não mais se
modificou, passou a contar com dois violões, baixo, sintetizador e a
impressionante voz de Teresa Salgueiro. Foi uma decisão arriscada do grupo
liderado pelo violonista e compositor principal Pedro Ayres Magalhães - mas deu
certo. Algumas das melhores músicas já gravadas pelo Madredeus, como Coisas
Pequenas, Não Muito Distante e Haja o Que Houver são de O
Paraíso - mas neste, em faixas como Os Dias são à Noite e À
Margem, já se percebem alguns defeitos que, somados a outros ainda (por
exemplo, influência new age), vieram a comprometer decisivamente a
qualidade do disco de estúdio posterior, Movimento, de 2001: uma certa
fragilidade temática, um pouco de falta de rumo misturada com outro tanto de
presunção (mas sejamos justos: Movimento tem pelo menos uma obra-prima,
A Lira – Solidão no Oceano).
Foi, portanto, um tanto temeroso que
fui ouvir o novo disco de composições inéditas do Madredeus (no interregno que
se seguiu ao lançamento de Movimento foram colocados no mercado um disco
ao vivo com orquestra e outro de remixes, Madredeus Electronico), Um
Amor Infinito - lançado na mesma data do lançamento de You Are The
Quarry, de Morrissey. Com algumas audições já pude perceber que meu maior
temor, o de que a banda tinha definitivamente perdido o rumo, era
infundado; mas a minha esperança, a de que a banda voltasse a ser o que era,
também não se cumpriu: Um Amor Infinito é um disco tranqüilo, sereno,
agradável de ouvir e, mesmo, com momentos brilhantes - mas muito distante das
alturas inimagináveis que eles atingiram em O Espírito da Paz, de 1995,
ou no duplo ao vivo Lisboa, de 1992.
As melhores faixas do disco
são a dramática Cantador da Noite; a pungente Ó Luz da Alegria; as
reflexivas Reflexos do Ouro e Suave Tristeza; Às Vezes, que
parece saída de um dos dois excelentes discos de 1995 da banda, O Espírito da
Paz e Ainda; e a singela Palavras Ausentes. Todas elas grandes
músicas do Madredeus - se você conhece e gosta deles, sabe do que eu estou
falando.
Mas ser resenhista é meio espinhoso às vezes: o álbum Um Amor
Infinito tem muitas faixas fracas, e não dá para fugir desta verdade. Uma
Estátua, Um Amor Infinito (a canção) e Os Males do Mundo são
mornas, sem atrativos - você ouve e logo esquece que ouviu. Em Moro em Lisboa
Teresa Salgueiro canta de uma maneira estranha, desajeitada - e a letra é
boba: "que outra cidade / levantada sobre o mar / (...) / entre dois braços
de água / água doce / água salgada". Vislumbrar - O Canto Encantado
tem lá seus momentos, mas o que é aquela orquestração, e o que é aquele canto
falado da maior cantora portuguesa da atualidade? O Olival é um
instrumental meio sem sentido - mas é em Ao Crepúsculo que a coisa pega
mesmo: não há mesmo nada que preste nesta canção.
Em resumo, Um Amor
Infinito é um disco totalmente irregular - obrigatório para fãs, claro,
mesmo porque os bons momentos são muitos. Mas se você não conhece os Madredeus,
procure por O Espírito da Paz, Lisboa ou alguma coletânea (tem uma
muito boa da Som Livre chamada Palavras Cantadas): se você gosta de
música tranqüila - mas com alma -, você não vai se arrepender.