Algumas Obsessões
Fabricio
John Wayne em três momentos
James Dean é um ator espetacular. Expressivo, tenso, intenso, ele
tinha tudo para ser meu ator preferido - mesmo porque já vi várias vezes cada um
de seus três filmes. Mas não é. Uma série de outros grande atores - por exemplo,
Max von Sidow, Toshiro Mifune, Marlon Brando, Montgomery Clift, James Stewart,
Robert Mitchum - também têm grande qualidades interpretativas e dramáticas, e
não fariam feio numa eleição particular de melhores atores de todos os
tempos.
Esta enrolação toda é para dizer que meu ator preferido nem é
assim considerado um grande ator dramático. Que eu saiba, nunca trabalhou numa
peça de Shakespeare. Só ganhou um Oscar de melhor ator. Era extremamente
conservador na política - chegou a dirigir um filme defendendo a participação
americana na guerra do Vietnã. Nunca deve ter sido incluído pela crítica em
listas de dez melhores atores de todos os tempos. Não importa. Basta John Wayne
aparecer na tela para eu concluir automaticamente: "este filme é muito
bom".
A grande qualidade de Wayne era o seu impressionante carisma.
Imponente - com quase dois metros de altura - ele era a própria personificação
do cowboy rápido no gatilho. A grande atriz Louise Brooks (ver mais
detalhes aqui) estava em
completa decadência quando atuou com um John Wayne em começo de carreira no
filme Overland Stage Raiders, um faroeste B lançado em 1938. As palavras
dela a seu respeito são significativas: "Ao olhar para ele, pensei: ele não é
um ator, é o herói de toda a mitologia em forma de homem, um ser simplesmente
lindo".
Na maioria dos faroestes em que participou Wayne fazia um
mesmo tipo, simpático, corajoso e debochado. Em alguns filmes, entretanto - como
nas obras-primas de John Ford Rastros de Ódio e O Homem que Matou o
Facínora - o ator fez, com grande maestria, personagens sombrios e
rancorosos.
Se você quiser conhecer um pouco sobre esse grande ator,
além dos dois filmes de Ford citados acima, recomendo também outros três que vi
(ou revi) recentemente: No Tempo das Diligências e O Céu Mandou
Alguém, também do mestre John Ford, e El Dorado, com outro mestre, o
diretor Howard Wawks.
No Tempo das Diligências, a obra-prima
de John Ford (alguns preferem Rastros de Ódio), é figurinha
carimbada em listas de melhores filmes de todos os tempos. Ele conta a história
de uma série de pessoas que precisam atravessar uma estrada dominada por índios.
John Wayne faz um foragido da justiça - numa grande atuação, convincentemente
humilde e corajoso ao mesmo tempo. A grande qualidade do filme é a aguda visão
do mundo de Ford: enquanto as pessoas com uma boa posição na sociedade - a
mulher do militar graduado, o banqueiro, o homem respeitoso - se preocupam
apenas e tão somente com dinheiro e aparência, os marginalizados - o fugitivo da
justiça, o alcoólatra, a prostituta - são os únicos capazes de bondade e
heroísmo. Tudo isso contado com a enorme sutileza dos grandes westerns,
onde pouco é dito, muito é sugerido. Como se não bastasse, o filme ainda tem as
famosas tomadas panorâmicas de Monument Valley. Cinco estrelas é
pouco.
O Céu Mandou Alguém conta a história de três ladrões de
banco que, fugindo da polícia no deserto, fazem um parto e salvam a vida do bebê
recém-nascido. Neste belo filme do mestre Ford, de conteúdo fortemente religioso
- daqueles que nos deixam mais otimistas com relação à vida após o final da
projeção - Wayne, apesar de ser um dos ladrões, faz o seu simpático e
carismático tipo habitual.
El Dorado é uma obra-prima, que une
com grande maestria comédia, drama e ação. O ponto alto do filme são as
notavelmente engraçadas cenas de diálogo (e de brigas) entre o xerife bêbado,
interpretado pelo grande Robert Mitchum, e o seu grande amigo, o pistoleiro
vivido por John Wayne. El Dorado é o tipo do filme que melhora a cada vez
que se assiste.