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3:21 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
![]() Saulo Pereira de Mello estudou física e filosofia e é, junto
como Plínio Süssekind da Rocha, um dos responsáveis por ainda podermos assistir
aquele que é considerado o maior filme brasileiro de todos os tempos. A
dramática restauração de Limite é contada por Emil de Castro na
biografia do diretor Mário Peixoto (*):
E é esta abalizada autoridade o autor de
um pequeno livro (de pouco mais de 100 páginas) da coleção Artemídia,
da Editora Rocco, chamado Limite. O livro - eu nem precisaria
comentar - é uma preciosidade para os fãs do filme (entre os quais me
incluo).
Limite, o livro, foi lançado em 1996 e é
uma reunião de dois longos artigos lançados no início da década de 90
(Metamorfoses do visível e Insólita organização de
imagens) somados a uma introdução e a um epílogo (chamados respectivamente
de Antes de Limite e Depois de Limite) feitos especialmente
para o livro.
As partes de leitura mais fácil são, sem
dúvida, a introdução e o epílogo. Antes de Limite apresenta um
rápido panorama do cinema brasileiro da época, conta quais as influências
principais e o que levou Mário Peixoto a criar seu filme, além de
explicar que seu fracasso retumbante - Limite nunca chegou a
ser distribuído comercialmente - foi, claro, causado por ser "difícil" mas
também por que vários outros filmes brasileiros da época também tinham
problemas com a distribuição. Depois de Limite conta a
vida de Mário Peixoto após seu único filme em 1931, com cerca
de 21(!) anos de idade: com temperamento difícil, várias outras vezes
tentou fazer outra película e nunca conseguiu; dedicou-se
obsessivamente à literatura; nunca teve um trabalho formal e, anos antes de
falecer em 1992, já tinha gastado toda a fortuna da família - sendo
socorrido no final da vida por seu fã, o também diretor de cinema Walter
Salles Jr.
Já os dois artigos são de leitura complexa -
principalmente o longo (60 páginas) Metamorfoses do visível, uma
análise de Limite feito com grande detalhamento.
O artigo dá ênfase no fato de que a cena inicial do
filme de Mário Peixoto - a da mulher com envolta pelas mãos algemadas
em torno de si (apresentada acima) - é a sua proto-imagem, isto é: aquela
na qual todo o restante da película vai se basear. Esta imagem, semelhante a uma
que o diretor viu na capa de uma revista européia, é um símbolo das limitações
humanas - tema, segundo Saulo Pereira de Mello, de todo o restante da
película, a qual mostra três náufragos - o Homem n.1 e as Mulheres n.
1 e n. 2 - num barco à deriva contando as histórias de suas vidas antes do
seu trágico final. A partir desta idéia da proto-imagem Saulo Pereira
de Mello vai desenvolvendo sua descrição de Limite como sendo um filme
angustiante, onde não há perspectivas de que os seres humanos consigam superar
suas próprias limitações a não ser no fim inexorável: na morte.
Metamorfoses do visível é um artigo muito mais
filosófico do que técnico: o autor vai analisando uma grande quantidade de
detalhes dentro do filme para corroborar com sua teoria. Entre muitos outros
exemplos, Saulo Pereira de Mello mostra que os cabelos dos náufragos estão
sempre despenteados, símbolo de falta de rumo dos personagens; as cidades são
mostradas meio apodrecidas, praticamente em ruínas, significando
a decadência de tudo; a postura dos náufragos é aristocrática: o que
poderia parecer um contra-senso com a origem deles na verdade é mais uma mostra
de que Limite é um filme alegórico; o olhar das pessoas no filme é
cabisbaixo - enquanto que o riso em algumas cenas é vulgar: não há
saídas viáveis para a humanidade, e este é o recado de
Limite. Mesmo quando analisa o modo de Mário Peixoto criar seus
incríveis takes - ora com a câmera parada, ora em grande liberdade de
movimentos - o autor do livro tem sua tese em mente.
O estilo do artigo Metamorfoses do visível (o
artigo seguinte, menor em tamanho, Insólita organização de
imagens, é uma espécie de resumo deste), se não chega a ser
totalmente confuso, peca um pouco pela empolação e por repetições
desnecessárias. Mas nem é esse o seu maior problema: embora Saulo Pereira de
Mello elogie sim a magnificência técnica do filme Limite, estes
elogios parecem pouco suficientes: não há espaço, em seu livro, para o absoluto
assombro que toma conta de quem assiste este filme
espetacular, com imagens belíssimas, takes inesperados e uma
história contada magistralmente apenas por imagens (o filme todo é mudo, com
intertítulos em apenas uma cena). Além disso, Pereira de Mello também não cita
algumas soluções técnicas geniais de Mário Peixoto (**), esquece de
comentar sobre a beleza decadente da paisagem e não escreve uma palavra sobre
como a maravilhosa trilha sonora - criada por Brutus Pedreira, a cargo
de nomes como Debussy, Satie e Ravel - ajuda a deixar o espectador
pasmo com o filme. Em outras palavras: querendo provar sua teoria,
o autor do livro praticamente esqueceu que ver Limite é uma
experiência estética impactante, assombrosa, inesquecível.
E, mais do que a qualquer teoria de limitação
humana, eu diria que a permanência do filme de Mário Peixoto se deve mesmo à
sua enorme - e inesperada - beleza.
(*) in Jogos de Armar: a vida do solitário Mário
Peixoto. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2000. 230pp)
(**) por exemplo, a cena em que a câmera "procura" uma
estafada Mulher n.1 que acabara de fugir da cadeia; outra em que a câmera "age"
como uma louca, andando de um lado para outro enquanto que a Mulher n.2 pensa em
suicídio; e a bela seqüência idílica de takes da Natureza
mostrados enquanto o Homem n.1 faz amor com a esposa - leprosa - do Homem n.2
(vivido pelo próprio Mário Peixoto - o único personagem com os cabelos
arrumados, como brilhantemente notou o autor do livro Limite).
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