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2:31 p.m. - 2004-12-14
Liv Ulmann em Sonata de Outono

Algumas Obsessões
Fabricio


Liv Ulmann em Sonata de Outono

Forte e dúbia em Vergonha, sensual e fria em Gritos e Sussurros, profundamente cruel em Persona, Liv Ullmann mostra outra faceta de seus enormes seus recursos como atriz em Sonata de Outono, filme de 1977 de Ingmar Bergman. Liv Ullmann faz o papel de Eva, a filha frustrada de Charlotte (a grande atriz Ingrid Bergman, em seu único papel sob a direção de Ingmar Bergman), uma pianista de carreira internacional.

O filme todo é uma prestação de contas entre uma filha carente e sua mãe indiferente - o fato da mãe nunca ter sido carinhosa evidencia-se também pelo fato dela sequer aceitar a existência de outra filha, Helena, que sofre de uma grave doença degenerativa - é uma surpresa insuportável para Charlotte saber que Helena estava vivendo com Eva, e não mais no hospital onde havia sido deixada. Grande parte do filme é passado durante uma madrugada insone, onde Eva, que era incapaz de se sentir amada pelo compreensivo marido e que ainda tinha algum tipo de ligação espiritual com o filho morto, despeja todas as suas frustações acumuladas contra a mãe. Esta era indiferente, viajava muito, e era apenas preocupada com sua carreira. Uma temporada mais longa em que ambas tinham ficado juntas foi ainda mais traumatizante para Eva, pois a mãe queria mudar tudo na filha. Aquela simplesmente não conseguia aceitá-la do jeito que esta era. Mesmo de ter piorado a doença de Helena Charlotte é acusada. Eva diz que não há perdão possível. (Durante estas discussões terríveis, as cenas do passado são filmadas com a câmera distante e atores praticamente sempre parados e de costas, num efeito enormemente opressivo.) Charlotte chora, se defende como pode, dizendo que era tão carente quanto a filha, e que também não tinha sido amada quando criança.

Mas toda esta carga de rancor era demasiada para a grande pianista Charlotte, que vai embora cedo na manhã seguinte.

Se fosse um cineasta qualquer, Bergman acabaria o filme aí mesmo. Mas não é o que acontece: Eva manda uma carta à mãe (que a lê, apesar da filha achar que isto não iria acontecer) pedindo perdão, dizendo que se arrepende de tê-la tratado tão rudemente, e que não vai desistir de retomar completamente as relações com ela. Afinal, existe algum tipo de misericórdia. Tomara que não seja tarde demais. Não pode ser tarde demais, Eva insiste.

Se Ingrid Bergman está simplesmente extraordinária como a altiva Charlotte, é difícil arranjar palavras para descrever a assombrosa interpretação de Liv Ullmann. No início do filme ela é uma pessoa insegura, tentando agradar a mãe de qualquer jeito: ela sorri timidamente, fica sempre sem graça, se atrapalha à toa. À medida que - na discussão descrita acima - sua raiva vem à tona sob efeito de algumas bebidas, o olhar de Liv vai ficando firme, agudo e frio. No ápice da discussão, Eva olha firmemente nos olhos da mãe e pede que aquela faça o mesmo, no que não é atendida. Esta transformação ocorre aos poucos, no calor da discussão - e por isto é plenamente convincente. Nos momentos finais do filme Liv Ullmann já é uma pessoa carinhosa, amorosa e, principalmente, esperançosa. A mudança da primeira Eva, insegura, para esta, esperançosa, reside em algum lugar incerto, quem sabe no fundo do olhar.

Sutileza é isto.

(o texto acima é uma revisão do publicado originalmente aqui)

 

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