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9:56 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
O Hitler da
História e O
Duelo: Churchill x Hitler são dois extraordinários livros sobre o mesmo
período, e escritos pelo mesmo autor - o húngaro radicado nos Estados Unidos
John Lukács. As semelhanças, entretanto, param por aí. O Duelo: Churchill x
Hitler (Jorge
Zahar Editor, 241 páginas - cujo título original em inglês é somente The
Duel) é um fascinante e detalhado relato dos 80 dias em que Hitler esteve
mais próximo da vitória total na Segunda Guerra Mundial. Estes 80 dias vão de 10
de maio de 1940, com o que Lukács chama de Primeira Coincidência - no
mesmo dia Churchill assume o poder e Hitler inicia a ofensiva contra a França -
até 31 de julho, o dia em que Roosevelt decide apoiar a Inglaterra e Hitler
comunica a seus generais que vai invadir a Rússia. Lukács descreve paralelamente a
enorme dificuldade que a Inglaterra teve nesse período e a incrível seqüência de
vitórias alemãs. A França é vencida no final de maio e os Estados Unidos estavam
extremamente relutantes em entrar na guerra. Hitler desejava a todo o custo um
acordo de paz com Churchill - a proposta do Führer era a seguinte: a
Inglaterra cederia a Europa ocidental ao alemães mas, em troca, teriam seu
império intocado. Nestas circunstâncias, a resistência do primeiro-ministro
inglês foi muito mais difícil e a vitória alemã muito mais próxima do que
comumente se imagina. Ao contrário da antiga idéia estabelecida, Lukács defende
que Hitler não desejava invadir a Rússia e nem achava o Lebensraum (*) tão profundamente importante para os alemães. Segundo o autor de
The Duel, o ditador nazista só invadiu a Rússia para forçar a Inglaterra
a assinar a paz, já que seria improvável que Churchill continuasse lutando
contra uma Alemanha senhora de toda a Europa e de toda a Rússia.
Além da descrição minuciosa dos
fatos históricos e de uma detalhada descrição do dia-a-dia dos dois líderes
durante os 80 dias em estudo, O Duelo: Churchill x Hitler dá enorme
destaque para o perfil psicológico de ambos. No livro Hitler emerge como uma
pessoa fria, calculista, praticamente sem senso de humor, que se alimentava
praticamente como um asceta e que quase não tomava bebidas alcoólicas. Já
Churchill tinha um humor bem mais refinado, era emotivo - freqüentemente ia às
lágrimas -, e, embora bebesse bastante, aparentemente diminuiu em muito o
consumo de álcool durante os 80 dias do duelo. Ambos iam dormir tarde e
acordavam tarde. Os dois líderes tinham inteligência ágil - mas profunda -,
grandes conhecimentos históricos e ótima penetração psicológica - mas Hitler
confiava mais na intuição do que o primeiro-ministro inglês. Uma característica
marcante do Führer era saber o ponto fraco de seus inimigos, embora tenha
se equivocado freqüentemente em relação a Churchill. Segundo Lukács, a diferença
mais marcante entre os dois era que Hitler era movido principalmente pelo
ressentimento e o ódio aos inimigos, enquanto que o primeiro-ministro britânico
era muito mais magnânimo. Se O Duelo: Churchill x
Hitler impressiona pela detalhada análise dos fatos, O Hitler da História
(Jorge Zahar Editor, 251 páginas) impressiona pela extensão dos
conhecimentos, pela profundidade - e, também, pelo estilo. O livro é uma análise
das biografias existentes sobre o ditador nazista, onde Lukács, como diz a
orelha do livro, age como uma espécie de "promotor, colocando as biografias no
banco dos réus". O livro é dividido em capítulos, cada um versando sobre um
aspecto da vida ou do legado de Hitler - e a maneira como cada biógrafo analisa
este determinado aspecto é julgada, então, por Lukács. O autor de O Hitler da História
é contundente. O revisionista inglês David Irving é criticado, por exemplo,
por usar muitas fontes de pesquisa falsas ou mesmo inexistentes. No outro
extremo do espectro das análises sobre Hitler, o anti-nazista radical
norte-americano David Schirer, autor de Ascensão e Queda do III Reich, é
chamado de "superficial" e de "germanófobo". Lukács considera
que a melhor das biografias "longas" de Hitler é a de Joachim Fest (Adolf
Hitler: Eine Biographie), e, entre as menores, os maiores elogios vão para a
de Percy Ernst Schramm (Hitler: The Man And The Military Leader).
Ao mesmo tempo em que julga os
trabalhos alheios, Lukács apresenta sua própria visão da personalidade de
Hitler. Muitos dos mitos criados - e defendidos por Schirer, por exemplo - para
menosprezar o ditador nazista são demolidos em O Hitler da História.
Segundo este, o ditador nazista tinha uma vida sexual normal - não era
sexualmente pervertido, portanto; era mais talentoso como pintor e arquiteto do
que usualmente se admite; era corajoso; e não tinha acessos histéricos. Mesmo o
racismo de Hitler era inconstante, já que ele fazia alianças com, por exemplo,
árabes, japoneses, romenos e búlgaros - seu grande ódio racial era reservado
contra os judeus mesmo. A sua única fraqueza pessoal era uma tendência à
hipocondria. Mais do que isso, Lukács defende - ao contrário daqueles que crêem
que o ditador nazista era conservador, graças à importância dos grandes
industriais e proprietários de terra em seu governo - que Hitler era um
verdadeiro revolucionário, e que representava algo realmente novo,
enquanto que Churchill defendia os velhos ideais democráticos (**). Em O Hitler da História é mesmo defendida a hipótese de
que, caso ganhasse a guerra, Hitler tiraria aos poucos o poder dos mais ricos
para que a Alemanha fosse se aproximando de algo parecido com o socialismo.
Outra novidade do poder de Hitler é a grande importância que este dava à
opinão do povo (Volk) - ninguém, em sã consciência, pode negar que a
grande maioria do povo alemão realmente apoiava o ditador nazista (***). O julgamento correto e imparcial dos fatos em O Hitler da
História também é notado no estilo literário empregado: há uma preocupação
clara, em todo o livro, em se utilizar a palavra precisa, a
palavra justa. Por exemplo, ao contrário de boa parte das obras do período
nazista, Lukács não acha correto se referir a Hitler como sendo O
Mal, nem como sendo demoníaco. É importante ressaltar, entretanto,
que Lukács não é, em absoluto, um revisionista: não negando os enormes talentos
de Hitler, ele o culpa por tê-los usado mal (****).
(*) no seu livro
Mein Kampf (Minha Luta) Hitler defende a idéia de que apenas com a
invasão da Rússia Bolchevista o povo alemão teria sua sobrevivência assegurada,
graças à obtenção do Lebensraum - espaço vital. (voltar ao
texto) (**) Interessante
observar aqui que fica claro, na leitura de O Hitler da História, que
para Lukács nem sempre o mais novo é o melhor. (voltar ao
texto) (***) Outro
aspecto a ser notado é que Lukács acha que, por pior que tenha sido o
nacional-socialismo, os ideais de nacionalismo (já que a população se
identifica sobremaneira com a noção de Pátria - é só notar como o
socialismo internacionalista ruiu, por exemplo) e de socialismo
(com as suas noções de Previdência e bem-estar social) acabaram vencedoras após
a guerra. (voltar ao
texto) (****) de leitura
saborosa em O Hitler da História são suas notas, com importantes e
esclarecedoras informações complementares ao texto. Estas notas ocupam as 58
últimas páginas do livro (por isso não podem ser chamadas de rodapé).
Muitas vezes, após a citação de uma frase de outro autor ou de um personagem
histórico, aparece um cortante comentário de
Lukács. Por exemplo, reproduzo aqui a nota 33 da
página 227: 33. E. Jäckel, Hitler in History
p.89-90. "E quebrado imediatamente". Esta
conclusão talvez seja simplista demais. Outras notas simplesmente
reproduzem um comentário de Lukács (nota 11, p.235): 11. Uma tendência que têm em comum
com os defensores mais circunspectos - ou parciais - de Napoleão é atribuir aos
britânicos intenções cruéis contra seu país. (Jacques Bainville, por exemplo, no
caso do primeiro; Andreas Hillgruber, no caso do segundo.) Importantes também são as notas com
comentários extensos, onde Lukács aprofunda, normalmente com maestria, o assunto
tratado no corpo do livro. Um bom exemplo disto são as notas em que Lukács nota
semelhanças entre Hitler e o Anticristo - neste sentido, é interessante notar
também que, em O Duelo: Churchill x Hitler, Lukács notava a presença do
dedo de Deus em um ou outro acontecimento histórico.
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