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2:48 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Diogo Mainardi é repulsivo. Diogo Mainardi é desprezível. Diogo Minardi tem Brasilfobia. Diogo Mainardi é um abacaxi com caroço. Ele não cansa de constranger seus colegas no programa Manhattan Connection. Lucas Mendes, Caio Blinder e Ricardo Amorim, direto de Nova Iorque, falam das belas perspectivas para o futuro do Brasil. Corta para o Rio de Janeiro: Diogo Mainardi começa lentamente um raciocínio meio tortuoso e logo sabemos aonde a coisa vai dar: o governo do PT é incompetente, precisa-se urgentemente de um bafômetro no Palácio do Planalto, o governo gasta demais, deste jeito o Brasil não vai sair da sua permanente pasmaceira. O efeito, quase sempre, é de uma ducha de água fria. O assunto acaba com a palavra dele. Um olha para o outro, e a coisa termina por ali mesmo, com todos os "novaiorquinos" constrangidos. O americanófilo Caio Blinder (e não pensem que fui eu que o chamei de americanófilo - foi o filósofo e economista Eduardo Giannetti da Fonseca que o fez) já disse que está virando um nacionalista brasileiro xenófobo para se contrapor ao Diogo Mainardi. Caetano Veloso chamou o colunista de Veja de um abacaxi com caroço. Segundo o "polêmico" cantor baiano, Diogo Mainardi - assim como Paulo Francis - é um entreguista, um derrotista, parte deteriorada da cultura brasileira. Realmente, dá raiva quando ouvimos o Diogo Mainardi falar que nossa música não tem valor, que nossa literatura não tem valor, que nosso cinema não tem valor. O que realmente o Brasil produziu de importante no campo do entretenimento? O futebol, e só. Bossa nova? Um jazz requentado. Machado de Assis? Cópia de Lawrence Sterne. Guimarães Rosa? Um James Joyce de segunda categoria. E é aqui é que a porca torce o rabo para o meu lado (só para constar, adianto que não vou comentar aqui as opiniões dele sobre política e economia brasileiros): estes vitupérios todos do Mainardi em relação à cultura brasileira me obrigaram a fazer uma auto-crítica. Vou começar pela música. Da minha coleção de discos, quantos são de música nacional? Uns 5%, no máximo 10%. Da minha lista de 45 disco preferidos, publicada neste site, apenas quatro são de artistas brasileiros. A porcentagem de livros de autores nacionais que li está em torno de 10% do total (se tanto) - dia destes, inclusive, fiz uma lista com os 20 livros que mais gostei e só um, Dom Casmurro de Machado de Assis, é brasileiro. Quanto ao cinema então, nem se fala - se bem que meu filme preferido, Limite, é nacional. Mas é um mau exemplo: o diretor Mário Peixoto não fez mais nenhum filme (este foi o seu único), tendo morrido muitas décadas depois de concluí-lo - numa mostra de como o Brasil pode tratar mal os seus gênios. Fora as obras supracitadas, o que mais realmente me dá prazer na cultura nacional? Música "brega" (Agnaldo Timóteo, João Mineiro e Marciano, Evaldo Braga, alguma coisa de funk carioca). Uma banda de rock/pop/MPB carioca, o Los Hermanos. Uma banda de rap, o Racionais MC's. Da MPB, Cartola, o Roberto Carlos dos anos 70, João Gilberto, alguma coisa de Chico Buarque. E mais uma ou outra coisa esparsa de rock, rap ou MPB. Alguns poucos escritores - notadamente Graciliano Ramos e Carlos Heitor Cony. Tenho também uma grande simpatia pela cultura do sertão nordestino de modo geral, embora não entenda quase nada do assunto. E acho que a televisão brasileira tem um bom contingente de excelentes atores e atrizes (por exemplo, Antonio Fagundes, Fernanda Montenegro, Cláudia Abreu, Lima Duarte, Glória Pires, além do extraordinário humorista Renato Aragão), ótimos programas (Os Normais, Sai de Baixo, A Grande Família) e grande novelas (com autores muito bons, principalmente Gilberto Braga). E, pensando bem, mais nada. Deixo a conclusão para o leitor.
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