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3:21 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
![]() Não tenho bem certeza se existe alguma tradução brasileira de
Mansfield Park, o mais volumoso (479 páginas) e mais austero livro de Jane
Austen (1775-1817). A edição que li - e que demorei um bom tempo para terminar -
é da editora inglesa Penguin Classics, cuja capa está apresentada
acima.
O livro conta a história de Fanny Price, filha de Frances Ward
- que é a mais nova das três irmãs Ward - com um certo sr. Price, um
lugar-tenente da Marinha sem educação, sem conexões e sem fortuna. Ao
contrário de Frances, sua irmã mais velha Maria consegue se casar com Sir
Thomas Bertram, homem bastante rico e dono da propriedade no campo chamada
Mansfield Park - que é a residência dos
Bertram e onde toda a ação do livro acontece. A outra das irmãs Ward
casa com um certo Rev. Norris, homem com menos fortuna que Sir Thomas, mas
mais bem situado econômica e socialmente que o sr. Price. Os Norris acabam indo
morar bem perto de Mansfield Park, enquanto que os Price vão residir
em Portsmouth. Se por um lado Lady Bertram e Mrs. Norris compartilham de um
convívio diário, sua irmã Mrs. Price é simplesmente esquecida pelas
duas, vivendo com dificuldades na cidade grande. Depois de muitos
anos nesta situação Mrs. Norris tem a idéia de trazer para morar em Mansfield
Park uma das filhas de sua irmã mais pobre: a menina - é aqui onde eu
queria chegar - é a já citada Fanny Price.
A vida da tímida Fanny entre os seus familiares mais ricos
é difícil. Com exceção de seu primo, o bom-caráter Edmund Bertram,
todos em Mansfield Park fazem questão de deixar claro, em todos os
momentos, que a prima pobre é inferior: ela não só não tem
direito a ter uma vida social normal como tem a obrigação de
ajudar suas duas tias Norris e Bertram. Enquanto que esta é tão indolente
que mal consegue sair do sofá, Mrs. Norris - uma das personagens mais
marcantes do livro - tem um caráter terrível, sempre querendo
parecer boa, mas sempre avarenta e má: é ela que é a mais
grosseira entre todos com Fanny e que,
cruelmente, mais tenta destruir o amor-próprio da sobrinha.
E é contando a vida de Fanny Price que o livro vai
caminhando, em ritmo sutil, lento e de profunda penetração psicológica -
com a extraordinária capacidade de Jane Austen em contruir personagens
coerentes, de carne-e-osso (*): à medida que o livro se
desenvolve somos apresentados às fúteis jovens Bertram; ao Sr.
Rushworth, um homem rico, mas completamente estúpido; aos irmãos Henry
e Maria Crawford, pessoas ricas e de poucos escrúpulos, e que são os causadores
de grandes turbulências na pacífica vida dos Bertram em Mansfield Park.
Obviamente, o personagem mais importante do livro é Fanny
Price. Ela é tímida ao extremo e de saúde frágil mas, ao mesmo tempo,
de uma grande força de vontade e de uma enorme maturidade: seu
conhecimento sobre o caráter das pessoas é posto à prova quando sua
mão é pedida em casamento pelo bem-situado Henry Crawford e ela
recusa, contra a vontade de todos - e no fim fica mais do que
provado que sua decisão era a correta.
Mas o personagem mais bem construído de Mansfield Park
talvez seja Sir Thomas Bertram: a maneira como ele passa
da pessoa fria, altiva e extremamente preoucupada com as convenções
sociais do início do livro para uma pessoa - depois da volta de
uma loguíssima viagem a trabalho - mais calorosa e mais
justa, e que acaba dando a Fanny Price o valor que ela merece, é
extremamente verossímil e, por que não dizer, emocionante. Coisa de gênio.
Ao contrário dos demais livros importantes de Jane Austen
(Emma, Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade,
Persuasão e Northanger Abbey) o tom de Mansfield Park
é sempre sério: acaba ficando decepcionado o leitor que for lê-lo
esperando aquelas deliciosas intrigas de namorados para decidir
quem-vai-casar-com-quem, presentes nos demais. Mansfield Park
é o livro mais polêmico entre os fãs da escritora: enquanto uns tantos
o acusam de ser chato, outros o defendem, pela profundidade com que a
história é tratada.
Na verdade, os dois lados têm um pouco de razão: o livro é bem
construído, extremamente verossímil de grande penetração
psicológica mesmo. Mas, falando francamente, tem horas que dá vontade
de parar a leitura, de tão lento que é. Não é à toa que demorei quase seis meses
para terminar de lê-lo. (*) É preciso que se ressalte aqui que a genial escritora
inglesa faz poucos comentários sobre as atitudes de seus personagens,
deixando boa parte das conclusões para o leitor.
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