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3:39 p.m. - 2004-12-14
Monika e o desejo, de Ingmar Bergman

Algumas Obsessões
Fabricio


Monika e o desejo, de Ingmar Bergman

Diretor de poucas cenas externas e de grande intimismo, Ingmar Bergman tentou algo diferente em 1952, em Monika e o Desejo. Neste filme, Harry (Lars Ekborg), um rapaz romântico e honesto, se apaixona pela sexualmente liberada Monika (uma Harriet Andersson bela, sensual e irreconhecível para quem a conhecia apenas pela personagem Agnes de Gritos e Sussurros - ver mais detalhes aqui). Assim que começam a namorar ele, apaixonado, tem dificuldades em se concentrar no emprego num almoxarifado e logo é despedido. Monika, por sua vez, infeliz em casa (seu pai bebia e era agressivo ou inconveniente) propõe a Harry que fujam juntos. Este pega o barco do pai e ambos saem em viagem pela Suécia, sem destino.
 
As belas cenas que se seguem lembram um pouco as viagens de casais de outros dois grandes filmes, O Atalante (dirigido por Jean Vigo em 1934) e Aurora (dirigido por F.W. Murnau em 1927). Também é marcante a enorme sensualidade de Monika (que chega a aparecer nua numa cena).
 
Mas grandes filmes não costumam ser baseados numa ilusão romântica. Rapidamente o casal de namorados percebe que sem dinheiro ambos não poderiam sobreviver: eles são assaltados, passam frio e fome (Monika chega a entrar uma casa para roubar comida). Nesta situação desesperadora, ela conta a ele que está grávida. O que poderia ser um aumento no desespero causa uma reviravolta nos sentimentos do responsável Harry - que passa a querer voltar para a cidade e começar a trabalhar para sustentar a criança.
 
E é o que ele faz. Logo casa com Monika e arranja um emprego onde - agora que realmente estava necessitando - se destaca e é querido pelos chefes; além disso, ele começa seus estudos na faculdade de engenharia. A sua mulher, entretanto, não demonstra qualquer carinho pela criança, e nenhuma aptidão pelo papel de mãe. Tudo o que ela faz é reclamar com Harry que este não tem dinheiro para que os dois possam sair dançar, ou para lhe comprar roupas novas e caras.
 
A situação vai ficando mais e mais insustentável. Certa vez, precisando viajar a trabalho, não só o casal deixa a criança com a tia de Harry (pois sua mulher "não suportaria" ficar sozinha cuidando da filha) como Monika, numa cena de grande efeito, é mostrada num bar com outro homem. Seu olhar desafiador e penetrante para a câmera é chocante - e é esta a cena do cartaz do filme (a que aparece na capa do vídeo). Nada mais restava do casamento. Harry fica sabendo da traição, dá uns tapas na mulher, que vai embora.
 
A cena final, onde Harry lembra cenas agradáveis - que tinha passado com Monika - na frente de um espelho, sem mais ninguém por perto a não ser a filha no colo, não chega a ser trágica pois ele está sorrindo: ele sabe que o que é mais importante em sua vida está ali, nos seus braços.
 
Mesmo com toda a sutileza empregada no filme - a personalidade de Monika, por exemplo, vai se revelando aos poucos, numa belíssima técnica narrativa -, para Bergman o bom e o mau são claros. E se ele tentou mesmo fazer um filme belo e poético como O Atalante ou Aurora, posso garantir que o grande diretor sueco atingiu plenamente seu objetivo.
 

 

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