Algumas Obsessões
Fabricio
Monika e o desejo, de Ingmar
Bergman
Diretor de poucas cenas externas e de grande intimismo, Ingmar
Bergman tentou algo diferente em 1952, em Monika e o Desejo. Neste filme,
Harry (Lars Ekborg), um rapaz romântico e honesto, se apaixona pela sexualmente
liberada Monika (uma Harriet Andersson bela, sensual e irreconhecível para quem
a conhecia apenas pela personagem Agnes de Gritos e Sussurros - ver mais
detalhes aqui). Assim que começam a namorar ele, apaixonado, tem
dificuldades em se concentrar no emprego num almoxarifado e logo é despedido.
Monika, por sua vez, infeliz em casa (seu pai bebia e era agressivo ou
inconveniente) propõe a Harry que fujam juntos. Este pega o barco do pai e ambos
saem em viagem pela Suécia, sem destino.
As belas cenas que se
seguem lembram um pouco as viagens de casais de outros dois grandes filmes, O
Atalante (dirigido por Jean Vigo em 1934) e Aurora (dirigido por F.W.
Murnau em 1927). Também é marcante a enorme sensualidade de Monika (que chega a
aparecer nua numa cena).
Mas grandes filmes não costumam ser
baseados numa ilusão romântica. Rapidamente o casal de namorados percebe que sem
dinheiro ambos não poderiam sobreviver: eles são assaltados, passam frio e fome
(Monika chega a entrar uma casa para roubar comida). Nesta situação
desesperadora, ela conta a ele que está grávida. O que poderia ser um aumento no
desespero causa uma reviravolta nos sentimentos do responsável Harry - que passa
a querer voltar para a cidade e começar a trabalhar para sustentar a
criança.
E é o que ele faz. Logo casa com Monika e arranja um
emprego onde - agora que realmente estava necessitando - se destaca e é querido
pelos chefes; além disso, ele começa seus estudos na faculdade de engenharia. A
sua mulher, entretanto, não demonstra qualquer carinho pela criança, e nenhuma
aptidão pelo papel de mãe. Tudo o que ela faz é reclamar com Harry que este não
tem dinheiro para que os dois possam sair dançar, ou para lhe comprar roupas
novas e caras.
A situação vai ficando mais e mais insustentável.
Certa vez, precisando viajar a trabalho, não só o casal deixa a criança com a
tia de Harry (pois sua mulher "não suportaria" ficar sozinha cuidando da filha)
como Monika, numa cena de grande efeito, é mostrada num bar com outro homem. Seu
olhar desafiador e penetrante para a câmera é chocante - e é esta a cena do
cartaz do filme (a que aparece na capa do vídeo). Nada mais restava do
casamento. Harry fica sabendo da traição, dá uns tapas na mulher, que vai
embora.
A cena final, onde Harry lembra cenas agradáveis - que
tinha passado com Monika - na frente de um espelho, sem mais ninguém por perto a
não ser a filha no colo, não chega a ser trágica pois ele está sorrindo: ele
sabe que o que é mais importante em sua vida está ali, nos seus
braços.
Mesmo com toda a sutileza empregada no filme - a
personalidade de Monika, por exemplo, vai se revelando aos poucos, numa
belíssima técnica narrativa -, para Bergman o bom e o mau são
claros. E se ele tentou mesmo fazer um filme belo e poético como O
Atalante ou Aurora, posso garantir que o grande diretor sueco atingiu
plenamente seu objetivo.