|
|
|
2:30 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Eu
acabei de ler os livro Mulherzinhas (Coleção Obras-Primas, Nova Cultural,
2003), de Louisa May Alcott, há mais ou menos um mês. Estou escrevendo esta
coluna sem estar com ele por perto. Pretendo terminá-la de uma sentada, sem
consultar nada a não ser a minha memória (*). Só estou contando isto, é preciso
que se diga, para mostrar que o livro gruda - e como - na
memória. Mulherzinhas é um
livro infanto-juvenil escrito no século XIX, e que esbarra no melodramático e no
pueril diversas vezes - sem jamais cair neles, diga-se de passagem. Além disso,
um detalhe estilístico dele me irritou profundamente quando comecei a lê-lo:
muitas vezes, depois que uma personagem falava vinha a descrição do que ela
estava fazendo (por exemplo: "Assim não pode", disse Jô enquanto cerzia
meias). Na verdade, Louisa May
Alcott parece uma adolescente escrevendo. Mas o
melhor mesmo é não se deixar levar por preconceitos bobos. Mulherzinhas é
um livro delicioso, com personagens profundamente bem delineados. Uma verdadeira
obra-prima, do mesmo nível de um Charles Dickens - mas com estilo
próprio. Mulherzinhas conta
a história dos March, família americana que perdera boa parte de seus bens
quando o pai resolvera ajudar um amigo com problemas financeiras. Quando o livro
começa, o pai já tinha ido lutar na Guerra da Secessão, e a mãe e as quatro
filhas ficam em casa - onde, aliás, se passa praticamente toda a história. É
grande o número de dificuldades pelas quais todas passam - mas há sempre espaço
para um bom conselho e para um apelo à fé. E é aí
que reside uma grandeza de Mulherzinhas: por mais que ele seja um livro
com "lição de vida", as personagens parecem de carne e osso, fugindo totalmente
do estereótipo de pessoas perfeitas. Meg é a mais bela das quatro irmãs, e a que
mais sofre com as dificuldades financeiras; Jô é inteligente, impulsiva, e passa
grande parte do tempo tentando conter seus impulsos agressivos; Beth é a bondade
em pessoa, mas excessivamente tímida; Amy é imatura, mas de um modo divertido.
Estas quatro têm no rico Laurie um amigo divertido e fiel; e na mãe a pessoa que
sempre dá opiniões sensatas - por mais que também lute contra seus próprios
instintos agressivos. Os outros personagens - o complexo sr. Laurence, o avô de
Laurie; a mal-humorada e rica tia March; o pai das meninas; o professor Brooke
-, por mais que sejam menos importantes no enredo, são também marcantes e bem
construídos. A
estrutura do livro é praticamente episódica, com cada capítulo se baseando em um
diferente acontecimento ocorrido com as irmãs March. Os temas abordados - um
piquenique no parque, a visita à casa de Laurie, as apresentações teatrais
feitas pelas irmãs em casa, os trabalhos que cada uma tinha que fazer para
ajudar em casa - são normalmente corriqueiros, mas se lê Mulherzinhas com
um interesse crescente. Mas tem
mais, afinal de contas. Mulherzinhas tenta provar que se pode ser feliz
sem ser rico. E eu
acho que consegue. ____________________________________________________________ (*) Só
para registrar: não terminei a coluna de uma sentada, e ainda pedi ajuda para o
Gil com alguns nomes.
|