Algumas Obsessões
Fabricio
O Autógrafo
Do meu lado, no check-in do
aeroporto de Cumbica, em São Paulo, uma mala. Foi a primeira coisa que vi. Ela
estava cheia de etiquetas, cada uma representando um aeroporto em uma diferente
parte do mundo. O dono da mala era um português gordo, cansado, suado - meio
desanimado de tanto viajar, acredito.
A lembrança seguinte que tenho do
ocorrido é, estando já um pouco longe do check-in, olhar para o lado e
ver, a uma certa distância, um grupo razoavelmente grande de pessoas. Pude ouvir
um pouco o que eles falavam, e achei que eram portugueses. Fixei o olhar e vi
que que tinha uma mulher no meio deles. Olhei para a Valéria, do meu lado, e
falei:
- Valéria, acho que ali está a Teresa Salgueiro.
Era
impossível acreditar. A cantora que havia embalado meu sono durante, pelo menos,
uns seis meses - eu colocava a fita que tinha com os Madredeus (descrita
aqui), todas as
noites, para dormir. A minha cantora preferida desde a primeira vez que a vi,
numa propaganda da TV Cultura. A expressiva e bela Teresa Salgueiro, ali, na
minha frente.
Não era fácil ser fã dos Madredeus naquela época. Eu só
tinha um único disco da banda, Existir, que comprei, até hoje não sei
como (nem o pessoal dos Madredeus sabia que tinham lançado um disco deles por
aqui), numa loja de discos em Curitiba aonde só fui umas três vezes. E tinha
aquela fita de vídeo, gasta de tanto ser vista. Ainda não tinha acessado a
internet (o ano era 1995). Não sabia nada sobre a banda - nem quantos discos,
nem quando começaram, nada.
E a Teresa Salgueiro, ali, pertinho, pedindo
para me dar um autógrafo.
- Vai lá, Fabricio, pede um autógrafo pra ela -
a Valéria sugeriu.
- Não, estou com vergonha.
Mais alguns passos
para frente. Parei. Meia volta.
- Valéria, vou pedir um
autógrafo.
Tinha ido num congresso (de radares meteorológicos), e o único
papel disponível era o da lista de participantes. Seria aquele mesmo. A caneta,
eu tinha na bolsa.
A Teresa Salgueiro falava sem parar, num extremo bom
humor. Cheguei perto, respirei fundo, e apontei para ela:
- Você é
cantora, né?
- Sim.
- Teresa Salgueiro?
- Sim.
-
Você pode me dar um autógrafo?
E entreguei para ela o papel improvisado e
a caneta.
- Para quem?
- Como?
- O nome, para
quem?
- Ah, Fabricio Müller.
E assim ela escreveu o meu autógrafo
para Fabrício Miller. Em seguida começou a se formar um grupo em torno de
mim, e o empresário da banda me perguntou:
- Você é português?
-
Não, brasileiro.
- Já foi para Portugal?
- Não, conheço a banda de
um especial da TV Cultura.
Não, não falei que era a minha cantora
preferida. Não falei que tinha gravado o especial, veja só, por causa de
direitos autorais. Não falei que mal sabia como estava conseguindo balbuciar
algumas palavras naquele momento.
E a alegria do empresário era
evidente. Eu via potenciais cifrões brasileiros nos olhos dele.
- Você
conhece algum disco da banda?
É claro que eu não lembrava o nome do
disco. Mal lembrava meu próprio nome.
- É um com uns negócios de circo na
capa...
Começaram a citar alguns nomes de discos, até que a Teresa
Salgueiro falou:
- Existir?
- É esse - respondi.
À
medida que aumentava o interesse dos portugueses por mim, aumentava também meu
medo de ser um fã chato - eu lembrava de depoimentos de vários artistas falando
do quão inconvenientes alguns fãs acabavam sendo. Eu preferia qualquer coisa a
ser inconveniente para a Teresa Salgueiro. Despedi-me rapidamente, fiz
meia-volta e fui-me embora.
Após este encontro, os Madredeus lançaram um
disco - O Paraíso - onde a Teresa Salgueiro canta:
Volta no
vento
Por favor
E também canta:
Andorinha de asa negra
aonde vais?
Que andas a voar tão alta
Leva-me ao céu contigo, vá
Qu'eu
lá de cima digo adeus ao meu amor
Ó Andorinha
da Primavera
Ai quem
me dera também voar
Que bom que era
Ó Andorinha
na Primavera
também
voar
Às vezes eu penso, de brincadeira, que estes versos (e mais
outros aqui e ali) do disco O Paraíso foram feitos para mim. Ainda mais
que, segundo a Valéria, a Teresa Salgueiro ficou com os olhos arregalados o
tempo todo me olhando, enquanto fiquei junto do grupo de portugueses - e eu
mal lembro disso, pois estava muito nervoso.
Brincadeiras à parte,
quando lembro do autógrafo atualmente eu fico impressionado com a minha própria
imaturidade naquela época. A imagem de "criatura celestial" que a Teresa
Salgueiro tinha para mim desapareceu instantaneamente. Muito baixinha, mal
vestida, com um rosto absolutamente comum, a grande cantora portuguesa - minha
preferida até hoje, e, provavelmente, até sempre - é um ser humano como eu ou
você.
Uma descoberta tardia para um senhor de vinte e oito anos (a minha
idade em 1995), pois não?