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3:06 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Depois
da gratíssima surpresa que tive com a leitura de “A cidade e as serras”, de Eça
de Queirós (ver mais detalhes aqui), foi com a
melhor das expectativas que comecei a ler outro livro do grande escritor
português, o póstumo O Conde d’Abranhos, da Coleção Grande Obras da
Literatura em Miniatura, da Planeta DeAgostini (ver mais detalhes aqui). Logo
na introdução, a surpresa: o livro, segundo Eça, é apenas uma tentativa de
homenagear o grande caráter moral, grande político, o grande homem Conde
d’Abranhos – de quem o autor tinha sido secretário durante quinze anos. Fora a
influência do Conde que fez Eça deixar as “perniciosas idéias democráticas” e
socialistas para se tornar um cristão convicto e monarquista
conservador. Estranho
isto, pensei comigo. Primeiro por que o tom laudatório e unidimensional não
costuma combinar com um escritor de primeira linha. Além disso me pareceu um
pouco estranha esta conversão ao conservadorismo da parte de Eça – conversão
esta da qual eu nunca tinha ouvido falar. De todo o modo, acabei aceitando o
fato por que conheço pouco sobre sua vida e acabei lembrando que também era
monarquista, cristão e conservador outro gigante da literatura,
Balzac. Mas
estranho mesmo era este trecho da introdução: (O
Conde d’Abranhos) um dia exclamara na Câmara dos Deputados (sessão de 15 de
Agosto, «Diário do Governo» nº 2758): –
«Não podemos dar ao operário o pão na terra, mas obrigando-o a cultivar a fé,
preparamos-lhe no Céu banquetes de Luz e de
Bem-aventurança!» E
quem negará aí que não seja esta a verdadeira maneira de promover a felicidade
das classes trabalhadoras? Neste
ponto acabei pensando que Eça ficara maluco. Mas, sabe-se lá, a mentalidade da
época poderia ser diferente. Conformei-me novamente. Depois
da introdução e mais algumas páginas do corpo do livro, acabei interrompendo a
leitura do Conde d’Abranhos. Afinal de contas, este Eça era muito
diferente daquele que eu estava acostumado. Melhor mesmo ficar com a boa
impressão d’A cidade e as serras. Mesmo
assim, comecei a dar umas rápidas olhadelas em partes aleatórias do livro. O
estilo já começava a me parecer vívido e, estranhamente, Eça não escondia os
defeitos do Conde - por mais que sempre os justificasse e acabasse por
elogiá-lo. Até
que acabei procurando sobre o livro na internet e achei esta
página. O mistério, afinal, era-me desvendado! Tudo era fictício no livro – a
começar pelo Conde e por seu secretário, que não era Eça e sim um tal de Zagalo,
um personagem criado para contar a história elogiando Abranhos mesmo quando ele
fazia as maiores barbaridades: o conde, na verdade, era um sujeito mesquinho,
fingido, completamente sem caráter, capaz de literalmente qualquer coisa para
obter poder e dinheiro. Obviamente
senti-me um idiota quando descobri que estava diante de uma obra de ficção, e
não de uma elegia a um personagem real como eu tinha pensado antes. A
auto-reprovação, contudo, logo cedeu lugar ao prazer em retornar a ler O
Conde d’Abranhos. O
livro, agora, me parecia ácido, debochado, engraçadíssimo. Todas as péssimas
atitudes do conde são elogiadas e/ou justificadas pelo seu secretário Zagalo:
Abranhos abandonara o pai na miséria por que era uma alma sensível e
sofisticada, que não suportava, por exemplo, o chiado daquele quando tomava
sopa; abandonara o filho que tivera com a empregada por que esta era
“inconveniente” e o conde era uma personalidade superior; como político, mudava
de partido apenas para ir aonde estava o poder por que tinha uma grande visão
das coisas; era um Ministro da Marinha que tinha repulsa até em olhar o
mar – o que não era nenhum problema, pois a Abranhos só interessavam as
grandes questões. Mas
não é só descrevendo o Conde d’Abranhos que Eça é brilhantemente ácido: existem
outros personagens inesquecíveis no livro, como o Conselheiro Gama Torres - que
apenas repetia, sério e compenetrado, quando lhe faziam qualquer pergunta sobre
política: “há questões! Há questões terríveis, a miséria, a prostituição...”
(*). Segundo
este site,
supracitado, «O Conde d'Abranhos» foi deixado apenas em forma de esboço. Como
afirma o seu filho, que em 1925 transcreveu e publicou a obra, é natural que o
autor planeasse revê-la por completo, dando um tom mais moderado e subtil à
caricatura que esboçou. Eça de Queirós teria então eliminado o que pudesse ser
«excessivo no ridículo ou exagerado na perversidade». O romance ter-se-ia
tornado mais subtil e menos caricatural, mas não teria, quase certamente,
deixado de dirigir as suas farpas aos mesmos alvos. Fica a
pergunta: teríamos mais prazer em ler um O Conde d’Abranhos mais sutil e
menos caricatural? Tenho
sinceras dúvidas a este respeito. (*)
vale a pena ler esta descrição do Conselheiro Gama Torres presente em O Conde
d’Abranhos: “Muitas
vezes, segundo me contou o Conde, durante os meses de Estio em que a política,
refugiada na sombra das quintas ou na frescura das praias, dormita, o redactor
da Bandeira, sem assunto para o seu artigo de fundo, recorria ao génio do
Conselheiro, como um pobre envergonhado. Gama Torres, porém, colocando-se no
meio da casa, as pernas afastadas, o ventre saliente, as mãos atrás das costas,
fitava o soalho e.23
bamboleando
o crânio fecundo, murmurava surdamente: –
Ele há muitas questões!... Há questões terríveis. Há a prostituição... o
pauperismo... Ele há muitas questões... Mas,
repito-o, era um avaro intelectual que não gostava de fazer a esmola de uma
ideia. Não o censuro, pois é sabido que ele dava todo o seu tempo e todo o seu
génio às grandes questões sociais. Elas preocupavam-no tanto que era usual –
sempre que diante dele se falava de assuntos políticos – ouvi-lo murmurar
soturnamente: –
Ele há muitas questões! Questões terríveis: o pauperismo, a prostituição! São
grandes questões! Questões terríveis! E
pareciam com efeito terríveis essas questões, de uma tenebrosidade de abismo,
quando se via o olhar esgazeado com que ele parecia contemplá-las
mentalmente. Pouco tempo antes da sua morte, lembro-me de o ter
visto, uma noite, em Casa do Conde, numa ocasião de crise ministerial, e nunca
esquecerei a terrível impressão que me deixou aquele grande homem, de pé no meio
da sala, esgazeando o olhar em redor e dizendo cavamente: –
Os senhores podem crê-lo, nem tudo são chalaças; ele há questões terríveis... A
prostituição, o pauperismo, o ultramontanismo... Questões
terríveis. E no silêncio apavorado que deixara aquela voz
profética, em que se sentia a ameaça de graves tormentas sociais rolando do
fundo do horizonte, aproximei-me instintivamente do Conde, como quem procura
asilo seguro. Tal
era o director da Bandeira. Devo acrescentar que os únicos artigos que
ele dava para o jornal anunciavam as suas jornadas para a Ericeira, ou os partos
frequentes de sua esposa, ou ainda os progressos da sua doença de bexiga:
artigos curtos, de resto, mas numa linguagem tersa, firme, grave, em que se
sentia o homem de Estado!”
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