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9:34 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Quando assassinou o jornalista Fritz Gerlich na Noite dos Longos
Punhais, a Gestapo mandou para a sua viúva os seus óculos ensangüentados. Os
óculos de alguém que enxergou demais. Esta imagem aterradora é apresentada no
livro Para entender Hitler (Ed. Record, 2002), do jornalista Ron
Rosenbaum. No livro citado acima também pode-se ler este
trecho: A foto
tem a capacidade de chocar: Adolf Hitler casando-se com uma noiva negra. Mais de
seis décadas depois, esta extraordinária fotomontagem da imagem de Hitler, de
cartola e casaca, de braços dados com uma noiva negra, numa cena de êxtase
nupcial, apareceu na primeira página de um dos principais jornais de Munique,
esta representação jocosa de Hitler - num contexto de decapitação, miscigenação,
sexo transgressor e violenta desfiguração - ainda desprende uma aura de
temeridade, de perigo. Esta descrição de uma fotomontagem - que eu não vi, já que não há nenhuma
reprodução no livro e não consegui achar nenhuma reprodução na internet - me é
profundamente assustadora, e meu objetivo aqui é tentar entender o porquê disto.
Para começar é necessário explicar quem era o jornalista cuja morte foi descrita
no primeiro parágrafo. Personalidade contraditória, Fritz Gerlich foi um
crítico acerbo de Hitler apesar de ser conservador. Praticamente retirado do
esquecimento graças ao livro de Ron Rosenbaum, ele era o editor do jornal
anti-hitlerista Der Gerade Weg entre os anos de 1923 a 1933 - ano este em
que ele e seus colaboradores foram caçados pelos nacional-socialistas e enviados
a campos de concentração, poucos meses após a chegada de Hitler ao poder.
Existem indícios de que a Gestapo, antes de mandar Gerlich para Dachau (aonde
seria assassinado), retirou do prelo um exemplar explosivo de seu jornal,
que esclareceria definitivamente a rumorosa morte do grande amor de Hitler, sua
sobrinha Geli Raubal (há quem diga que este exemplar, nunca mais encontrado,
provaria que Raubal fora assassinada pelo próprio Hitler).
Voltemos então à foto descrita acima: ela apareceu
na capa de uma edição do Der Gerade Weg de julho de 1932, cuja manchete
principal era "HITLER TEM SANGUE MONGOL?". No artigo escrito com este título
Fritz Gerlich usa as teorias raciais dos nacional-socialistas contra o próprio
Hitler. Inicialmente ele comenta que aquela fotomontagem (que ele diz,
cinicamente, que fora mandada por um leitor) o fez pensar que, afinal de contas,
havia uma semelhança inesperada entre a "noiva" negra de Hitler e o
próprio Hitler. A partir disto Gerlich usa a tese do principal "biólogo racial"
do Reich para provar, levando em conta descrições de narizes de várias raças,
que o nariz de Hitler não era o de um ariano e sim o de um eslavo - mas de um
tipo bastardo de eslavo, formado pela mistura, após a invasão huna de
mongóis, com o tipo sangüíneo original eslavo (o próprio nome Hitler tem uma
certa origem eslava). O que deixava isto ainda mais grave era que, para os
nacional-socialistas, o nariz é o sintoma mais importante na ascendência
social de uma pessoa. Neste artigo irônico e explosivo ainda havia mais:
segundo o principal ideólogo nazista, Rosenberg, o traço sociológico mais
importante dos arianos é a sua independência e a sua liberdade, tanto que,
segundo ele, os duques germânicos não tinham grande poder sobre seu próprio
povo. Ainda segundo Rosenberg, os asiáticos, como Gêngis Khan, são despóticos e
ditatoriais. Isto é o suficiente para que Gerlich conclua que Hitler não só
tinha sangue, mas também a alma mongol, já que no seu partido a única
vontade que existia era a dele, que ele nunca precisava explicar o que fazia, e
que os seus seguidores tinham de obedecê-lo sem qualquer
informação. Conforme o autor de Para Entender Hitler
explica, Fritz Gerlich absolutamente não acreditava nestas teorias absurdas de
supremacia por causa do formato do nariz. O que ele quis foi provocar
profundamente Hitler, colocando a nu a fragilidade de sua própria teoria racial:
como classificar uma pessoa como racialmente superiora se o próprio
Führer não se coadunava nestes traços raciais "ideais"? E Gerlich
realmente provocou Hitler, conforme provam seus óculos
ensangüentados. O
autor de Para Entender Hitler, Ron Rosenbaum, além de jornalista, é
formado em literatura inglesa pela Universidade de Yale. E é, realmente, com
maestria que ele joga com palavras e imagens. Em seu livro ele fala diversas
vezes de uma certa estranheza de Hitler - mas não deixa claro se esta
estranheza é dele mesmo (uma forma velada de se referir ao demônio?) ou de suas
feições pouco arianas. Em outros momentos do livro o autor fala de
mistérios da vida de Hitler que provavelmente jamais serão esclarecidos
(como a edição de Der Gerade Weg retirada do prelo pela Gestapo que
esclareceria a morte de Geli Raubal). Em outros trechos ainda ele comenta
segredos terríveis da
obscura família de Hitler, ou analisa o profundo ódio de Hitler, quase
como se fosse um sentimento além da compreensão humana. Este clima próximo ao
sobrenatural permeia boa parte do livro. Mesmo o jornal de Fritz Gerlich é
mostrado como algo quase esquecido, secreto, como se fosse um segredo de uma
seita obscura. Já a descrição da fotomontagem (cuja imagem,
repito, não aparece no livro e eu nunca vi) é, por si só, surrealista ao modo de
um pesadelo: afinal, imaginar Hitler casando com uma negra assusta como um
palhaço assassino de criancinhas. Esta analogia é válida porque, casando com uma
negra, ele passa a ter uma imagem não racista e quase simpática. Mas,
exatamente como o palhaço assassino, esta roupagem agradável é apenas mais um
estratagema que o Mal utiliza ao atrair suas vítimas indefesas para, então,
torturá-las e executá-las. A diferença entre os dois está no fato de que, ao
contrário do palhaço do pesadelo, Hitler assassina criancinhas (e jornalistas
que enxergam demais) no mundo real - o que o faz muito mais
assustador.
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