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10:04 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
16.
Morrissey: Vauxhall and I Foi
enorme o impacto na Inglaterra quando este disco saiu: não só foi recebido com
fogos de artifício pela imprensa local, como chegou ao topo das paradas. A cada
vez que lembro de Vauxhall and I o que me vem à cabeça inicialmente é o
impacto que senti quando comecei a ouvi-lo pela primeira vez: não, por mais que
todos estivessem falando que esta era uma obra-prima eu não esperava nada
semelhante à belíssima Now My Heart Is Full, a faixa que abre o
disco. Épico,
dramático, melodioso, este é um disco sublime, profundo, confessional.
Fora
a música citada acima, os maiores destaques são o hit The More You Ignore Me,
The Closer I Get, o folk Why Don't You Find Out For Yourself e a
dramática Speedway. 17.
João Mineiro e Marciano: Coleção Bis Sertanejo (dois
CDs) Aqui eu
escrevi sobre a injustiça que é termos vergonha de dizer gostamos de João
Mineiro e Marciano - isto para fãs de Djavan, Barão Vermelho, Men at Work e Kid
Abelha. A voz
de Marciano é provavelmente a mais profunda da música brasileira, só comparável
com a do Roberto Carlos romântico dos anos 70. Esta
sensacional coletânea tem momentos simplesmente sublimes - como Eu Daria A
Minha Vida, Te Amo Mas Adeus e Seu Amor Ainda É Tudo ("A
vida nos faz tão pequenos / nos preparamos para muito / mas choramos por
menos") - e outros deliciosamente bregas - como A Mulher Que Eu Amo
("Só deixamos de amar quatro dias por mês") e Whisky Com
Gelo ("por você já bebi tanto / que já estou ficando bem
conhecido"). 18.
Smiths: Strangeways, Here We Come É
incrível que tem muita gente que acha este o pior disco dos Smiths. Aqui eu
tento reparar esta injustiça. 19.
J.S. Bach - Oferenda Musical (BWV 1079), com Musica Antiqua Köln Era
férias, eu treinava natação até as dez da manhã, jogava futebol de salão até o
meio-dia. De tarde eu me fechava no quarto e ficava lendo Thomas Mann (que eu
entendia) e William Faulkner (que eu não entendia) ouvindo principalmente a
Oferenda Musical de Bach com o conjunto Musica Antiqua
Köln. Bem
mais tarde comprei outra versão desta monumento da música (também em LP), muito
pomposa, com a Academy Of St. Martin-in-the-Fields sob a direção de Neviller
Marriner. A versão da Musica Antiqua Köln, com instrumentos de época, é muito
melhor, mais simples e direta. 20.
Snoop Doggy Dogg: Doggystyle Depois
de sua extraordinária estréia em The Chronic, de Dr. Dre (terceiro lugar
desta lista), em que torna imortal aquele que seria apenas um excelente disco,
Snoop Doggy Dogg grava seu primeiro álbum, Doggystyle - praticamente tão
bom quanto aquele. Como
The Chronic, Doggystyle é uma festa alucinante de ritmos - e os maiores destaques são a
espetacular Gin and Juice, Tha Shiznit, a sombria Murder Was
The Case (que certamente inspirou os Racionais MC's em
Estou Ouvindo Alguém Me Chamar), a divertida Who I Am (What's My
Name)? e as hipnóticas Gz And Hustlas e Pump
Pump. 21.
Tartini: Sonata para Violino e Baixo Contínuo em Fá Maior, op.1
no 12 e Concerto para Violoncelo e Cordas em Lá Maior (Coleção
Mestres da Música, da Editora Abril) Teresa:
Pai, coloca música clássica pra eu dormir? Eu:
Sim, claro. Posso colocar aquele mesmo de ontem? Teresa:
Pode colocar aquele disco que você adora. O
disco que eu adoro é o LP de Tartini da Coleção Mestres da Música. É
uma espécie de Vivaldi mais seco, mais direto - e mais
emocionante. 22.
Miles Davis: Kind of Blue Apesar
de ter este disco há mais de quinze anos, apenas há pouquíssimo tempo me dei
conta da real grandeza deste clássico absoluto do jazz. Embora todo
ele seja excepcional, as faixas lentas Blue Is Green, que fecha o
lado A, Flamenco Sketches, com uma extremamente sutil influência
espanhola, são os maiores destaques. 23.
J.S. Bach: Toccatas vols. 1 e 2 (BWV 910 a 916), com Glenn Gould ao
piano Glenn
Gould é freqüentemente considerado o maior dos intérpretes de Bach ao piano. Ele
é também muito criticado, entretanto, por um certo excesso de liberdade
em relação às partituras. Realmente,
é freqüente que se perceba em Glenn Gould interpretações completamente
diferentes daquelas de outros pianistas - mas normalmente a decisão tomada por
Glenn Gould é a melhor. É delicioso, por exemplo, ouvi-lo tocando piano
praticamente martelando-o como se fosse um cravo - um belo exemplo disso
é no Prelúdio n.1 do Primeiro Volume do Cravo Bem Temperado, aquele em que
Gounod se baseou para compor a sua Ave Maria. Para
figurar aqui os escolhidos foram os dois LPs com as sete Toccatas para teclado,
principalmente pelas emocionantes e intensas fugas finais de cada uma das peças
e por alguns adagios simplesmente arrebatadores. 24.
Morrissey: Kill Uncle Parece
provocação. Aquele que é quase que universalmente considerado o pior disco da
carreira de Morrissey aqui, numa lista de discos
preferidos. Mas
Kill Uncle, como se diz, melhora a cada dia que passa. Por mais que
Morrissey seja considerado um compositor depressivo (o que eu tentei refutar
aqui),
Kill Uncle é o único disco realmente amargo de sua carreira - talvez até
por isso o Morrissey praticamente não cante mais as suas músicas em seus shows.
Os
grandes destaques são a intensa Found, Found, Found, as pungentes I Am
The End Of A Family Line e There's A Place In Hell For Me And My
Friends, a "alegre" Sing Your Life e as complexas The
Harsh Truth Of The Camera Eye e Mute Witness (comentada por mim
aqui). Escute
sem preconceito para perceber que isto aqui não é uma
provocação. 25.
Massive Attack: Mezzanine Recentemente
li uma crítica falando mal do disco mais recente do Massive Attack, 100th
Window (que ainda não ouvi), dizendo algo como se ele "estivesse cumprindo
o que Mezzanine já prometia". No texto ainda era comentado que bom
mesmo era o tempo em que o Massive Attack era apenas pop (cito de
memória). Realmente
Mezzanine é um disco pretensioso. Ritmos hipnóticos vêm e vão, ruídos
eletrônicos de fundo, mudança
temática, tudo isto tem à exaustão no disco. Algumas músicas são tão
complexas que chegam a lembrar vagamente música erudita - não é à toa que meu
amigo Gil, que entende muito mais de música clássica que eu, adorou o
disco. Ainda
bem que o Massive Attack é pretensioso, eu diria. Mezzanine
cintila. 26.
Papa Roach: Infest Parece
uma outra provocação, eu sei. Praticamente não sei de ninguém que goste da
banda, fora o crítico Lucio Ribeiro, meu primo Alberto e o balconista que me
vendeu lovehatetragedy, o segundo disco deles (o comentado aqui é o
primeiro do grupo - e o único desta lista que obtive pela internet). A extinta
revista Showbizz fez uma crítica sobre Infest que dizia mais ou
menos o seguinte: o que o Papa Roach e bandas similares querem fazer é
destruir a melodia. Só que a revista deu nota 3,5 (cito de memória) para
o disco, enquanto que eu o coloco na minha relação de discos
preferidos. Quem
sabe a destruição da melodia seja o objetivo final deste estilo musical chamando
rock and roll mesmo (ver mais detalhes aqui). Quem
sabe eu simplesmente esteja errado - mas a cada vez que escuto Infest
gosto mais dele. 27.
Beatles: White Album Eu não
gostava muito dos Beatles. Para mim, dos anos 60 os bons mesmo eram os
Doors. Mesmo
assim eu tentava gostar da banda. Comprei o Sgt. Peppers - mas achei que
tinha jogado dinheiro fora. Com
este histórico desfavorável, não sei bem por que comecei a comprar vários LPs
dos Beatles em promoção numa loja que estava de mudança. Só o
que eu sei é que comecei a adorar as baladas do White Album
(Blackbird, Dear Prudence, Cry Baby Cry, Glass
Onion, Mother's Nature Son, Julia) e, ainda durante um bom
tempo, disse para os meus amigos que só gostava das músicas "desconhecidas" da
banda. Hoje em
dia considero os Beatles uma banda espetacular, conforme comentei aqui.
Mas, no
fundo, ainda acho que eles nunca foram melhores do que nas baladas do White
Album. 28.
Mahler: Das Lied von der Erde, com Jessye Norman - London
Symphony Orchestra - Colin Davis Este LP
está aqui por causa do lado B, com o monumental lied para orquestra
Der Abschied (O Adeus). Não há muito a acrescentar ao que eu já tinha
comentado aqui.
29.
Beethoven: Os Últimos Quartetos de Cordas, com Melos
Quartett Eu
tenho uma estranha "relação" com os Últimos Quartetos de Cordas de Beethoven,
que tenho numa ótima edição em quatro LPs com o Melos Quartett. Para começar,
esta edição tem um encarte detalhado sobre os discos - o qual eu mal folheei.
Além disso, quando vou ouvir uma das peças, pego aleatoriamente um dos LPs e
coloco um dos lados dele no meu toca-discos - sem sequer saber se o lado é o A
ou o B. Após umas quatro ou cinco audições, viro o disco e escuto mais algumas
vezes o outro lado. Com este método, eu nunca sei o número do quarteto
que estou ouvindo. Em todo
caso, a qualidade, a criatividade e a gama de estados de espírito destas peças
são tão imensas que, pensando bem, nem é necessário mudar a minha "relação" com
elas. 30.
Black Sabbath: Black Sabbath Se não
me engano, o José Augusto Lemos chamou
o Stooges de bomba de efeito retardado - graças à influência que seus
discos, do final dos anos 60/início dos anos 70, exerceram sobre o punk de 1977.
Nada
mais justo que este epíteto seja também aplicado ao Black Sabbath com Ozzy
Osbourne, já que o álbum Black Sabbath, de 1970, e uns quatro ou
cinco discos que vieram depois, foram fundamentais na eclosão do movimento
grunge. O tipo de rock que o Black Sabbath fazia, lento e pesado, foi
influência reconhecida por praticamente todas as bandas importantes de Seattle
do início dos anos 90 - o que fez com que o legado do Black Sabbath fosse
totalmente recuperado e reconhecido. Mesmo hoje bandas importantes como o Queens
Of The Stone Age continuam tentando soar como o velho grupo de heavy
metal de Birmingham (conforme comentei aqui). Quanto
a mim, continuo firme na minha opinião de que o grande legado do grunge
foi mesmo ter feito a crítica reconhecer a importância do Black Sabbath. Os extraordinários
riffs da guitarra de Tony Iommi combinam à perfeição com a voz meio
soturna e meio debochada de Ozzy Osbourne. E Black Sabbath, por uma
cabeça de vantagem, é o melhor disco da banda. 31.
Metallica: Master Of Puppets Tirar a
poeira de antigos LPs de pop/rock pode ser uma coisa perigosa. Quinze anos
depois a grande maioria destes discos simplesmente não faz mais o menor
sentido. E isto, no meu caso, nem pode ser creditado a algum trauma de
adolescência ou coisa parecida, graças a algumas poucas exceções a esta terrível
regra geral - como Beatles, Velvet Underground, Smiths e este espetacular
Master Of Puppets. É
engraçado que nos anos 80 eu gostava muito mais do primeiro disco do Metallica,
Kill' Em All, do que deste, o terceiro. Enquanto que o primeiro era mais
pesado, mais rápido e mais direto, Master Of Puppets me parecia
pretensioso demais, com suas alterações de ritmo, suas músicas muito longas e
seus enormes trechos instrumentais - sem contar que ele me parecia menos rápido
e menos pesado do que seria aconselhável. Hoje
estes "defeitos" me fazem achar este um disco extraordinário. Verdadeiras
"suítes" pesadas como Disposable Heroes, Master Of Puppets, The
Thing That Should Not Be e, principalmente, Welcome Home (Sanitarium)
são mais uma prova de que pretensão não é necessariamente prejudicial à música
pop. 32.
Stone Roses: Stone Roses Assim
como o disco anterior nesta lista, o primeiro álbum da banda Stone Roses,
homônimo, também passou com louvor pela prova da poeira, conforme
comentei aqui.
Recentemente
este foi escolhido o melhor disco de todos os tempos pela NME, o que é mais uma
prova de sua vitalidade. 33.
Johannes Brahms: The Cello Sonatas (op. 38 e 99), com Mstislav Rostropovich ao
violoncelo e Rudolf Serkin ao piano Considerada
uma das maiores gravações deste dois extraordinários músicos, este LP com as
duas sonatas para violoncelo de Brahms é o único responsável por esta relação
ter estes esdrúxulos 36 discos. Explico: a idéia era ter 30, um número
redondinho, mas, depois de chegar no 25o fiquei em dúvida: eu
tinha oito discos para cinco lugares vagos. Decidi-me por cinco (do
26o ao 30o, acima) e tudo parecia resolvido.
Aí resolvi ouvir o primeiro movimento, Allegro non troppo, da sonata n.1
op. 38. Não
teve jeito. Eu tive que colocar esta maravilha na minha relação (o
31o e o 32o vieram, então, no
embalo). 34.
Roberto Carlos: Roberto Carlos (1972) Como a
idéia de uma relação de 30 discos já tinha fracassado, acabei esticando um
pouquinho a lista. A
escolha deste disco do Roberto Carlos foi bastante insegura: o disco de 1974
tinha O Portão, A Deusa Da Minha Rua, Jogo De Damas e a fenomenal
interpretação do Rei para Ternura Antiga, de Dolores
Duran. Mas
este tem À Janela, Como Vai Você, de Antonio Marcos, Você É
Linda, Acalanto, Por Amor, À Distância, A
Montanha, Agora Eu Sei - todas elas pungentes, sinceras,
emocionantes. E ainda
tem O Divã, provavelmente a melhor música de Roberto e Erasmo Carlos.
35.
Getz/Gilberto: Stan Getz / João Gilberto João
Gilberto nunca cantou tão sussurrado quanto neste disco. Ele alonga os versos e
canta "assoprando", parecendo querer imitar o saxofone do grande músico de
jazz Stan Getz, que finaliza todas as faixas. O disco todo é límpido,
calmo, fascinante. Apesar
de The Girl From Ipanema, com a participação de Astrud Gilberto, ter
feito um sucesso gigantesco, o melhor mesmo são faixas menos conhecidas
como Pra Machucar Meu Coração, O Grande Amor e Vivo
Sonhando. 36.
Smiths: The Queen Is Dead Considerado
geralmente o melhor disco da carreira do Morrissey, este álbum está aqui para
fechar com alguma classe esta estranha relação de discos
preferidos. P.S.: 37.
Exploited: Beat The Bastards Este
texto já estava pronto quando meu grande amigo Marcos Fernandes mandou-me as
músicas de Beat The Bastards, disco da banda de hardcore
Exploited. Preferi, meio que
por preguiça, meio como uma homenagem ao impacto que o álbum me causou, deixar o
texto anterior exatamente como estava e inserir este P.S. aqui, para homenagear
esta obra excepcional, rápida, pesadíssima e totalmente sincera em seu ódio
contra as injustiças do mundo.
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