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10:03 a.m. - 2004-12-14
O processo, o castelo, a metamorfose e o abutre

Algumas Obsessões
Fabricio


O Processo, O Castelo, A Metamorfose e O Abutre

Já se disse que Kafka sempre conta a mesma história. Mesmo nos seus pequenos contos ele consegue, com grande maestria, reproduzir a mesma situação angustiante de seus romances.

A historinha abaixo é um excelente exemplo disso. Com apenas uma parágrafo, O Abutre tem começo, meio e fim - e é inevitável que façamos, desde a primeira leitura, um paralelo mental entre ela e seus grandes romances, O Processo e O Castelo, e sua novela A Metamorfose.

E é este "paralelo mental"  que tento, sem maiores pretensões, descrever aqui (*).


O Abutre (por Franz Kafka)

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés. Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina. Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre. — É que estou sem defesa – respondi. — Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados. — Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. — Basta um tiro e pronto! — Acha que sim? – disse eu. —Quer o senhor disparar o tiro? — Certamente – disse o senhor. — É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora? — Não sei lhe dizer – respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei: — De qualquer modo, vá, peço-lhe. — Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa possível. O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.


1. A Primeira Frase

Era um abutre que me dava grandes bicadas nos pés.

Exatamente como em O Processo ("Alguém devia ter caluniado a Joseph K., pois sem que ele tivesse feito qualquer mal foi detido certa manã.") e A Metamorfose ("Certa manhã, ao despertar de sonhos intranqüilos, Gregor Samsa encontrou-se em sua cama metamorfoseado num inseto monstruoso.") a primeira frase de O Abutre explica totalmente a situação que será desenvolvida no resto da história. Também como nestas duas obras, em O Abutre a situação absurda aparece de chofre, chocante e sem nenhuma explicação. Sabe-se que o personagem da história - chamemo-lo de narrador - sofre bicadas nos pés, mas não há a menor indicação do porquê disso.

2. O Desenvolvimento da situação opressiva

Tinha já dilacerado sapatos e meias e penetrava-me a carne. De vez em quando, inquieto, esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina.

Em O Processo a opressão da Justiça sobre os cidadãos processados em geral e sobre Joseph K. em particular é descrita com enorme quantidade de pormenores, numa atmosfera mais e mais angustiante à medida que o romance se desenvolve. Similarmente, em O Castelo as tentativas do agrimensor K. de se aproximar dos degraus mais elevados do poder da aldeia  - situado fisicamente num estranho e inatingível Castelo - esbarram numa absurda burocracia e são sempre infrutíferas. Em A Metamorfose a situação opressiva, contra a qual é inútil qualquer resistência, é mostrada nas transformações no corpo e no apetite de Gregor Samsa - agora um enorme inseto -, e no humor - cada vez pior - de toda a família.

Em O Abutre apenas duas frases resumem a opressão sofrida pelo narrador. O abutre bicava os pés dele, já se sabia disto. Mas agora se sabe que ele o fazia de maneira dolorida (penetrava-me a carne) e contínua (esvoaçava à minha volta e depois regressava à faina).

3. A Reação

Passava por ali um senhor que observou a cena por momentos e me perguntou depois como eu podia suportar o abutre. — É que estou sem defesa – respondi. — Ele veio e atacou-me. Claro que tentei lutar, estrangulá-lo mesmo, mas é muito forte, um bicho destes! Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés. Como vê, estão quase despedaçados. — Mas deixar-se torturar dessa maneira! – disse o senhor. — Basta um tiro e pronto! — Acha que sim? – disse eu. —Quer o senhor disparar o tiro? — Certamente – disse o senhor. — É só ir a casa buscar a espingarda. Consegue agüentar meia hora? — Não sei lhe dizer – respondi. Mas sentindo uma dor pavorosa, acrescentei: — De qualquer modo, vá, peço-lhe. — Bem – disse o senhor. — Vou o mais depressa possível.

Tanto em O Processo quanto em O Castelo os próprios personagens principais são os únicos que têm uma atitude de contraposição e de revolta contra a angustiante situação em que se encontram: Joseph K., no primeiro romance, chega a fazer um violento discurso denunciando o absurdo sistema judiciário que o processou sem que ele pudesse saber o porquê, enquanto que o agrimensor K., no segundo, em nenhum momento se conforma com a impossibilidade de acesso aos níveis mais altos da administração da aldeia (**). Nestes dois casos todos os demais personagens estão plenamente convencidos e conformados com a situação: a revolta do K. de O Castelo é normalmente encarada com espanto (é freqüente que os outros lhe digam coisas como: "como você pode querer isso? é impossível!") e a de Joseph K de O Processo é simplesmente ignorada - tanto pelos funcionários da justiça como pelos demais processados.

Em O Abutre, por outro lado, o papel do revoltado não é vivido pelo personagem oprimido, o narrador, mas sim por um senhor que passava ali. É ele que acha um absurdo deixar-se torturar dessa maneira. É ele que convence o narrador a tentar mudar a situação - e é ele que vai pegar uma espingarda para atirar no abutre. O narrador, que sofria passivamente a agressão do abutre ("Ia até saltar-me à cara, por isso preferi sacrificar os pés") acaba sendo convencido pelo outro não só pelos argumentos deste, mas também pela dor pavorosa que sentia.

Já em A Metamorfose não há praticamente espaço para revolta: a situação em que Gregor Samsa se encontra é tão definitiva que a única coisa que se deseja é que ele, transformado num enorme inseto, volte ao normal um dia - a mãe do personagem inclusive faz alguns planos para quando esta ocasião chegasse. No lugar da revolta, tudo o que Samsa e seus familiares sentem é desconforto, angústia e dor.

4. O Fim

O abutre escutara tranqüilamente a conversa, fitando-nos alternadamente. Vi então que ele percebera tudo. Elevou-se com um bater de asas e depois, empinando-se para tomar impulso, como um lançador de dardo, enfiou-me o bico pela boca até ao mais profundo do meu ser. Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.

A Metamorfose tem um final quase tranqüilo: após sofrer terrivelmente, Samsa tem uma morte calma, desejada ("sua própria [de Gregor Samsa] opinião de que deveria desaparecer era, talvez, mais decidida que a da irmã"), enquanto dormia. Depois disso o restante de sua família pôde tentar voltar à vida normal.

Apesar de contar com algumas partes intermediárias que não chegaram a ser terminadas, Kafka escreveu o capítulo final de O Processo. A história de Joseph K. termina de forma assustadora e grotesca: dois homens altos, atabalhoados e ridiculamente vestidos (que, pela estupidez, chegam a lembrar os dois ajudantes do K. de O Castelo) são os carrascos designados para executá-lo - e eles o fazem num local abandonado e distante, após obrigá-lo a andar junto deles por um enorme intervalo de tempo. Depois de apunhalado, Joseph K. grita "Como um cachorro!": o grito de sua revolta impotente.

O final de O Abutre é implacável e violento ao modo daquele de O Processo: tranqüilo e definitivo como os carrascos de Joseph K. , o abutre, após descobrir que senhor que passava por ali iria trazer a espingarda para atirar nele, enfia-lhe "o bico pela boca até o mais profundo" do ser do narrador. Mas, como em A Metamorfose, há um certo alívio no término da situação ("Ao cair senti, com que alívio, que o abutre se engolfava impiedosamente nos abismos infinitos do meu sangue.").

Kafka não terminou O Castelo: o livro termina com uma frase incompleta ("(...); falava com esforço, era preciso esforçar-se para entendê-la, mas o que ela dizia") e ficamos não só sem saber o que a personagem dizia, mas o que acontece com o personagem principal, o agrimensor. Mesmo assim O Castelo é uma obra-prima como da literatura universal, até porque o seu final está implícito: parece óbvio que K. jamais atingirá qualquer objetivo junto aos funcionários do Castelo.


(*) Foram utilizados as seguintes versões para os textos de Kafka:

A Metamorfose /e/ O veredicto / Franz Kafka; tradução de Marcelo Backes. - Porto Alegre : L&PM, 2001.

O Processo / Franz Kafka; tradução de Torrieri Guimarães. - São Paulo : Abril Cultural, 1979.

O Castelo / Franz Kafka; tradução e posfácio Modesto Carone. - São Paulo : Companhia das Letras, 2000.

O Abutre (in Contos Vários de Franz Kafka) - obtido por download no endereço www.uol.com.br/cultvox (voltar ao texto)

(**) Importante notar aqui a genialidade de Kafka, que não criou seus dois personagens K. com tintas grandemente favoráveis: os defeitos de caráter deles - que são freqüentemente mal-educados e impulsivos, e o K. de O Castelo, além disso, parece ser um manipulador frio -, longe de serem uma fraqueza da narrativa, dão maior veracidade às tramas. (voltar ao texto)

 

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