Algumas Obsessões
Fabricio
Sobre as mulheres e a estampa de
Cochin
Preâmbulo
Aqui e aqui eu havia resumido
e comentado duas pequenas críticas - uma literária, outra de arte - do grande
filósofo francês Denis Diderot (1713-1784). Abaixo (itens I e II) aqueles textos
estão revisados e dispostos em conjunto.
O Diderot da crítica ao livro
Sobre as mulheres, de Thomas, é aquele com o qual estamos acostumados:
direto, sem rodeios, chegando mesmo a ser ríspido e agressivo. Muitos, aliás,
poderão ficar chocados com os seus comentários - muitas vezes depreciativos -
sobre as mulheres.
Mas poucos deixarão de concordar que há um fundo de
verdade no que Diderot escreveu.
Na capa do livro de Thomas havia uma estampa
- e os comentários de Diderot sobre ela têm vivacidade, franqueza, inteligência
e humor, além de mostrar claramente o quanto de espírito deve ter a Arte
verdadeira.
Três páginas quase esquecidas, mas uma mostra irrefutável do
gênio de Diderot.
I
Em 1772 Diderot - à época apaixonado
pela Sra. de Meaux - escreveu uma crítica ao livro Sobre as mulheres, de
Antoine-Leonard Thomas. Segundo o grande filósofo francês, Thomas é um bom
homem, com bastante espírito - mas que pensou muito sobre as mulheres e
não sentiu o suficiente. Para Diderot, Sobre as mulheres é o livro
de um hermafrodita pois, se nele sobravam estilo, harmonia e fineza, por outro
lado lhe faltava a flexibilidade necessária para falar de um ser extremo na sua
força e na sua fraqueza, que entra em síncope nervosa ao vislumbrar um rato ou
uma aranha - mas que sabe, às vezes com grande coragem, enfrentar os grandes
terrores da vida.
Para Diderot, o que faltava no livro de Thomas? Dizer,
por exemplo, que as mulheres são extremas em no que sentem: a cólera, o ciúme, a
superstição e o amor são sentidos por elas de uma maneira que um homem jamais
sentiria. O contraste de seus sentimentos violentos com a doçura de seus traços
as tornam horripilantes. Enquanto que nos homens as distrações de uma vida
ocupada interrompem - nem que seja por algum tempo - suas emoções mais intensas,
nas mulheres a ociosidade ou a frivolidade tornam as paixões um ponto fixo, onde
seu olhar fica preso todo o tempo. Outra característica marcante das mulheres é
que, para elas, dormir com alguém não amado é insuportável - neste caso, aliás,
elas nunca se sentem suficientemente limpas após o ato sexual. A mulher pode não
gostar de ter relações mesmo com o homem que ama - enquanto que nos homens fazer
sexo, até com alguém considerado desprezível, costuma ser prazeroso. As
mulheres, ainda, são impenetráveis na dissimulação, cruéis na vingança,
constantes nos seus projetos, sem escrúpulos para atingir seus objetivos,
animadas de um ódio profundo e secreto contra o despotismo do homem. Elas também
simularão a embriaguez de uma grande paixão - se houver interesse em enganar. O
momento mesmo em que elas atingiram os seus objetivos pode ser aquele do
abandono deles. O orgulho é mais um vício feminino que masculino. As mulheres,
segundo Diderot, são sujeitas a uma ferocidade epidêmica.
Após este
retrato não muito favorável do sexo feminino, o filósofo critica firmemente a
sociedade machista da época, denunciando a tristeza sentida por elas ao serem
tratadas sempre como crianças imbecis, e que acabam sendo deixadas completamente
de lado quando os anos passam e a beleza fenece. As mulheres, além disto, não
eram educadas senão para cuidar de suas “folhas de parreira”. Ele chega a dar um
conselho às mães: quando um homem diz a uma filha “eu te amo”, na verdade ele
quer dizer: “se você quiser sacrificar sua inocência e seus bons modos; perder o
respeito que você tem por você mesma, e que você obtém dos outros; andar de
olhos baixos perante a sociedade; renunciar a uma aparência honesta; fazer
morrer seus pais de dor, e me dar um momento de prazer, eu serei muito
agradecido”.
Segundo Diderot, Thomas deveria falar das mulheres como elas
são realmente - ou em outras palavras: mais civilizadas que o homem
exteriormente, mas verdadeiras selvagens por dentro; nada sistemáticas, se
deixando sempre levar pela vontade do momento; e não mais decentes que os homens
- só mais delicadas (na aparência) por uma imposição da
sociedade.
II
A estampa - cujo autor era Charles-Nicolas Cochin
(1715-1790) - que ilustrava a capa da primeira edição do livro Sobre as
mulheres mereceu uma pequena crítica de Diderot - não publicada, nem mesmo
apresentada ao autor daquela. A Bilbliothèque de la Pléiade incluiu este texto,
chamado simplesmente Sobre a Estampa de Cochin (Sur L'Estampe de
Cochin), na sua edição das Obras Escolhidas (ver mais detalhes aqui), para que o
leitor tivesse uma idéia de como eram as críticas de pintura que Diderot
escrevia - e que, de fato, raramente publicava ou mostrava para os
criticados.
Em Sobre a Estampa de Cochin Diderot escreve com uma
franqueza cortante. Ele diz que Cochin desenha bem, mas compõe mal. Segundo o
filósofo, às vezes os homens de letras devem ser consultados, por que
nunca um homem de letras faria as bobagens que Cochin fez. Afinal
de contas, se existe um bom número de literatos que não são pintores, há um
bom número de pintores que não têm nenhuma poesia. Diderot comenta
ferinamente: Quanto tempo, estudo e talento perdidos! Se eu soubesse fazer o
que você faz, faria uma coisa bem diferente!
A estampa de Cochin
propriamente dita apresentava vários personagens mitológicos juntos: Minerva,
Prometeu, o Gênio da Música, homenageando a mulher (não se pode esquecer
que esta estampa estava na frente do livro Sobre as Mulheres de Thomas).
O que havia, afinal, de tão errado nesta estampa? Como tudo está arranjado! É
um amontoado de figuras sem verdade, sem espírito, sem efeito, sem caráter
definido. Elas são coladas umas sobre as outras, e todas sobre o fundo.
Nenhum ar que circule entre elas e que as destaque. Em nenhuma delas, nem a
ação, nem a posição, nem a expressão lhes é conveniente. O Gênio da
Música parece um anjo em adoração. Minerva não tem nenhuma severidade ou
nobreza. Prometeu estava ignóbil, ajoelhado sob as pernas de uma mulher:
aonde ele vai colocar o fogo? pergunta um debochado Diderot - a resposta:
não é na cabeça. Vênus tem alguma graça, mas não é linda - não é a
deusa, mas sim uma de suas seguidoras. A Pandora tem expressão comum -
para que ela tivesse o necessário de bondade e maldade ao mesmo tempo, sua boca
deveria estar entreaberta. Vênus não significa nada, não se sabe o
que ela faz. O filósofo quer saber por que a mulher está com cara de
choro no meio de tantos benfeitores. Sem contar que ela, a principal personagem
da cena, estava de pé - quando deveria estar sentada, pois é dela que todos se
ocupam, é para ela que todos se apressam e se dirigem.
Depois de dar a
sua opinião sobre a estampa de Cochin, Diderot descreve como seria a sua
estampa: a mulher estaria no centro da figura, voltando modestamente seus
braços para Minerva, enquanto que o Gênio da Música, vindo da mesma direção,
estaria rindo e alegre, mesmo um pouco louco. Do outro lado da mulher,
Vênus estaria inclinada. As mulheres inclinadas são tão bonitas! Prometeu
estaria nobre e orgulhoso, segurando o fogo sobre sua cabeça. Diderot agruparia
até quatro personagens, enquanto que as personagens secundárias teriam sido
isoladas. Diderot conclui finalmente que seria assim que haveria ação e
movimento; que o repouso estaria na figura dotada; que todos os outros
personagens seriam deslocados uns dos outros e do fundo; que haveria ar entre as
figuras, claridade e interesse no assunto. E é neste ponto, senhor Cochin, que
lhe desejo boa-noite.