|
|
|
9:53 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
"Os
jovens adoram Tarkosvki por que confundem lentidão com
profundidade" Logo após ter escrito, numa coluna anterior (o link está aqui), que o Paulo Francis era um jornalista que fazia sucesso por fazer críticas destrutivas, recebi um e-mail onde o Rodrigo James (também colaborador deste site) dizia que eu não deveria comparar o Alvaro Pereira Júnior e o Diogo Mainardi com o Paulo Francis pois este último sabia do que falava. A frase acima, sobre o diretor de cinema russo Andrei Tarkovski (1932-1986), e que me foi citada recentemente pela minha amiga Iáskara, é uma prova inequívoca de que freqüentemente o Francis era certeiro em seus comentários (*). Solaris,
lançado em 1972 e objeto de uma refilmagem recente com George Clooney, é, como
todos os filmes de Tarkovski, de uma lentidão exasperante (apesar de ser mais
ágil que Stalker ou Sacrifício, por exemplo). O filme tem
quase três horas e conta a história de Cris Kelvin (vivido por Donatas
Babionis), um astronauta russo que tem a missão de desativar uma estação
espacial no planeta Solaris, onde eventos estranhos estão acontecendo. Chegando
lá ele descobre que acontecimentos esquisitos são estes: as pessoas mais
presentes no pensamento de quem visita a estação se materializam e assumem vida
própria. Quem aparece diante de Cris Kelvin é Hari, sua bela esposa já falecida,
a qual o tinha abandonado após uma discussão com a sogra, mãe do astronauta.
Este então tem um tórrido romance com sua esposa materializada, e o restante do
filme trata do seu drama, já que ele está apaixonado por uma "Hari" efêmera - já que ela só existe quando está
próxima dele e ainda sob a ação dos raios de Solaris - e quase fantasmagórica.
O
parágrafo acima praticamente resume todo o filme Solaris, que, conforme
exposto acima, tem quase três horas de duração. É verdade que este resumo parece
muito curto, mas outro filme de Tarkovski, Sacrifício, pode ser resumido numa frase:
"um homem tem relações sexuais com uma bruxa para evitar que o mundo seja
destruído". Bem como dizia Paulo Francis, Tarkovski não é profundo. Se formos
comparar os seus enredos com os dos filmes de Ingmar Bergman por exemplo (**) - com quem é freqüentemente equiparado -, os do diretor russo
parecem vindos de um filme B. Apesar
de tudo isto, Tarkovski fascina. Seus filmes mostram um mundo em lenta
decomposição. São freqüentes longas tomadas de goteiras, de lugares sujos, de
lixo. Em Solaris a estação
espacial tem coisas velhas jogadas em toda parte, e os objetos estão sempre
dispostos de maneira desorganizada. É um filme de ficcção científica sem nenhum
efeito especial: embora se passe num futuro distante, todas as pessoas usam
roupas contemporâneas o tempo todo, e nenhum equipamento parece muito moderno (***).
A sua forma de filmar é notável: os longos closes parecem captar o pensamento das
personagens; as tomadas lentas, quase paradas, aumentam terrivelmente a tensão
do enredo; elipses (eliminação de cenas subentendidas) também são freqüentes,
tornando ainda maior a sensação de estranheza. Tarkovski é praticamente o
criador de uma nova estética, exasperante e fascinante ao mesmo tempo. Assim
como em Limite, de Mário Peixoto (ver mais detalhes aqui) a
maneira de contar é mais importante do que a história em si.
Assim,
involuntariamente Paulo Francis acabou "acertando no que não viu": não só os
jovens gostam de Tarkovski por que acham que lentidão é sinônimo de
profundidade, mas também por que são freqüentemente receptivos a novas formas de
olhar o mundo. ________________________________________________
(*) outro exemplo de comentário brilhante do Francis está
apresentado aqui. Apesar destas tiradas geniais, continuo sustentando que
o sucesso dele se baseava mesmo em suas críticas destrutivas. Entre diversos
exemplos, posso citar de memória que ele freqüentemente dizia que não gostou de
determinado filme simplesmente por que dormiu durante a projeção; ele criticava
todo o rock e Brahms sem dar maiores explicações a respeito; e também fazia
comentários racistas. O próprio processo judicial, que o levou a um terrível
estresse no final de sua vida foi movido por diretores da Petrobrás acusados -
sem provas - por Francis de terem
contas milionárias na Suíça. (**) alguns resumos e comentários que eu fiz sobre filmes de Bergman
podem ser encontrados nos seguintes links: 1 2 3 4 5
|