|
|
|
2:36 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Freqüentemente,
quando estou com o sono muito atrasado, assim que adormeço tenho um
míni-pesadelo. Acordo assustado, poucos minutos depois de ter deitado.
Assustado, mas relaxado. De modo
geral, hoje posso dizer que gosto de sonhar. Mas eu
não gostava. ________________________________________________________________ Era-me
uma experiência profundamente humilhante: solitária demais - eu não podia
dividi-la com ninguém. Eu não era nada, meus sonhos eram menos que
eu. Afora
isto, havia um profundo problema com os sonhos: se eles fossem bons, acabavam.
Se
maus, eram ruins por serem maus. Não
havia saída. ________________________________________________________________ Os
sonhos eram sempre os mesmos. Ou melhor, eram variações sobre alguns poucos
temas. Havia o
sonho da escada, do lugar alto, do despenhadeiro. Eu estava inseguro lá em cima,
morria de medo de cair. Havia o
sonho da escola: muito tempo depois de formado na vida real, descobrir que
faltava uma matéria para a formatura. Procurar a sala - mas já estávamos no meio
do semestre, eu já havia perdido as primeiras provas. A matéria que faltava
poderia ser matemática ou português - na universidade, onde não fiz essas
matérias. E eu
sonhava com os amigos que não via mais. Sonhava com pessoas que eu já tinha
quase perdido a esperança de ver de novo. Mas o
carro-chefe nem eram esses. Era andar. Quase sempre sozinho e sem destino. Como
um mendigo. Andar, andar, andar. Passar a noite na rua. Procurar por bancas de
revistas ou botequins sujos abertos de madrugada. Dormi
na Praça Tiradentes à noite, junto com os mendigos. Já esperei por ônibus - que
raramente vinham - no Centro-Cívico de madrugada. Já caminhei pela Eurípedes
Garcez do Nascimento sem saber o porquê, sem saber onde chegar. Já andei com
meios de locomoção estranhos, e que não domino na prática, na Getúlio Vargas. Já
fui passageiro de ônibus, indo de um lugar desconhecido para outro. Já caminhei,
de dia ou de noite, no meio de favelas terrivelmente assustadoras. Já fui até à
Rua das Flores e fiquei por lá. Não tinha para onde ir mesmo. Muitas
vezes cada um destes sonhos sem destino. E os
assaltos. E o abandono. E o medo. ________________________________________________________________ Ainda
tenho muitos desses sonhos. Mas não
é mais tão ruim.
|