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2:36 p.m. - 2004-12-14
Sonhar

Algumas Obsessões
Fabricio


Sonhar

Freqüentemente, quando estou com o sono muito atrasado, assim que adormeço tenho um míni-pesadelo. Acordo assustado, poucos minutos depois de ter deitado. Assustado, mas relaxado.

De modo geral, hoje posso dizer que gosto de sonhar.

Mas eu não gostava.

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Era-me uma experiência profundamente humilhante: solitária demais - eu não podia dividi-la com ninguém. Eu não era nada, meus sonhos eram menos que eu.

Afora isto, havia um profundo problema com os sonhos: se eles fossem bons, acabavam.

Se maus, eram ruins por serem maus.

Não havia saída.

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Os sonhos eram sempre os mesmos. Ou melhor, eram variações sobre alguns poucos temas.

Havia o sonho da escada, do lugar alto, do despenhadeiro. Eu estava inseguro lá em cima, morria de medo de cair.

Havia o sonho da escola: muito tempo depois de formado na vida real, descobrir que faltava uma matéria para a formatura. Procurar a sala - mas já estávamos no meio do semestre, eu já havia perdido as primeiras provas. A matéria que faltava poderia ser matemática ou português - na universidade, onde não fiz essas matérias.

E eu sonhava com os amigos que não via mais. Sonhava com pessoas que eu já tinha quase perdido a esperança de ver de novo.

Mas o carro-chefe nem eram esses. Era andar. Quase sempre sozinho e sem destino. Como um mendigo. Andar, andar, andar. Passar a noite na rua. Procurar por bancas de revistas ou botequins sujos abertos de madrugada.

Dormi na Praça Tiradentes à noite, junto com os mendigos. Já esperei por ônibus - que raramente vinham - no Centro-Cívico de madrugada. Já caminhei pela Eurípedes Garcez do Nascimento sem saber o porquê, sem saber onde chegar. Já andei com meios de locomoção estranhos, e que não domino na prática, na Getúlio Vargas. Já fui passageiro de ônibus, indo de um lugar desconhecido para outro. Já caminhei, de dia ou de noite, no meio de favelas terrivelmente assustadoras. Já fui até à Rua das Flores e fiquei por lá. Não tinha para onde ir mesmo. 

Muitas vezes cada um destes sonhos sem destino.

E os assaltos. E o abandono. E o medo.

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Ainda tenho muitos desses sonhos.

Mas não é mais tão ruim.

 

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