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9:42 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Cena 1:
Woodstock Raul está sentado numa praça em Amsterdam, se sentindo em Woodstock. Ele tem 14 anos (o ano é 1982), é a primeira vez que viaja para fora do país e é a única vez em muitos, muitos anos, que vê alguém fumando maconha. Mas Raul nem está preocupado com o consumo de drogas à sua volta - ele jamais teve vontade de experimentar qualquer uma delas mesmo. O que realmente o interessava era o rapaz tocando guitarra à sua frente - um mulato de baixa estatura fazendo longos e "viajantes" solos, bastante semelhantes aos de seu ídolo Jimi Hendrix. Raul adorou o espetáculo. Cena 2: Solos de guitarra não vão me
conquistar Muito influenciado pelos gostos musicais da revista Bizz, Raul não escuta mais solos de guitarra (o ano é 1987). Nenhuma das bandas realmente apreciadas pela revista se caracteriza pelo tipo de som que tocava o mulato da cena 1. A cada vez em que pensava em seus solos de guitarra abandonados para sempre, uma música definitivamente abominável lhe vinha à cabeça. Nesta canção irritante uma bela moça, lá pelas tantas, cantava: solos de guitarra não vão me conquistar. Irritante mesmo. Cena 3: Depressão e
alento Raul, já com mais de trinta anos, ouviu um cd de blues completamente esquecido do meio de sua coleção - cd este que viera grátis com um exemplar da revista Bizz (ou seria Showbizz?). Era exatamente o que ele precisava ouvir naquele momento - os blues lhe fizeram um enorme bem. A partir desta data Raul comprou vários outros discos no estilo (muitos em promoção), todos de bluesmen norte-americanos e negros. À medida que ouvia mais este tipo de música, Raul compôs a sua primeira teoria a respeito: como tinha tentado, sem sucesso, gostar de blues em várias épocas anteriores, Raul concluiu que o blues só pode mesmo ser apreciado por homens heterossexuais com mais de 30 anos. Esta teoria, baseada numa certa misoginia e numa certa melancolia próprias ao estilo, ao contrário das que vieram em seguida, não chegou a ser refutada por ele. Outra teoria que Raul foi desenvolvendo à medida que ouvia mais e mais Lightnin' Hopkins, John Lee Hooker e Robert Johnson, é que o blues, para ser bom, não pode ter guitarras distorcidas. Quanto mais acústico, melhor. Cena 4: Blues de branco Primeiro foi um disco da banda brasileira Blues Etílicos emprestado ao Raul por um amigo: muita técnica e nenhuma alma, pensou ele. Depois três rapazes curitibanos numa emissora local, vestidos de terno e chapéu, cantando blues e se achando umas gracinhas: não, blues não era aquilo, concluiu Raul. Estes dois acontecimentos precipitaram-no a criar uma nova teoria: o blues está intimamente ligado à geografia e à cor da pele. Brasileiros não sabem fazer blues, e brancos também não sabem. Alguém aí já viu samba de americano?, concluiu Raul. Cena 5: O gênio
camuflado Raul não lembra exatamente quando uma emissora local de TV (já extinta) passou um show inteiro de Stevie Ray Vaughan, o qual ele assistiu uma parte. Ele até que não achou desagradável, mas Stevie Ray Vaughan usava chapéu de cowboy (imperdoável), usava umas roupas completamente ridículas (o que era aquele lenço no pescoço?), fazia solos enormes, e ainda com guitarra distorcida, era um branco tocando blues e parecia simpático e inofensivo (para Raul, o verdadeiro cantor de blues, para adquirir a verdadeira alma do estilo, deveria ter cara de mau). A quantidade de defeitos era imensa - Raul achou que fez o bastante em ouvir um pouco aquele cantor sem se irritar. Cena 6: Na Saraiva, no Shopping
Mueller Raul adorou aqueles solos de guitarra que ouviu quando entrou numa loja de discos e livros. Adorou a voz do cantor (isto sim é que é blues cantado com alma!!!) Adorou as melodias. O prazer que ele sentiu foi acompanhado de um certo ceticismo: será que as outras músicas são assim tão boas?, pensou. E ficou na loja, fazendo hora. E ouviu uma música inteira. E ouviu outra. E mais outra ainda. E a cada nova faixa o seu espanto aumentava. Nenhuma, absolutamente nenhuma faixa tinha qualidade "razoável". Todas eram excelentes, no mínimo. Já sem nenhuma dúvida a respeito do que deveria ser feito, Raul foi até o balconista da loja e perguntou que disco era aquele: Stevie Ray Vaughan, você conhece? Não. Gostou? Adorei, respondeu. No final, tornando ainda mais extraordinária esta cena espantosa, o balconista sorriu com grande sinceridade e disse a Raul: Muito obrigado por comprar este disco! Eu sempre coloco aqui, as meninas odeiam e ficam me torrando a paciência. Cena 7: Ouvindo Stevie Ray Vaughan em casa, again and
again Até hoje Raul pensa no enorme caminho que percorreu para se tornar um fã incondicional de Stevie Ray Vaughan, um bluesman mal vestido, branco, com cara de bonzinho e que tocava enormes solos com guitarra distorcida. Conclusão: Final do texto da contracapa do álbum duplo
Stevie Ray Vaughan and Double Trouble Live
at Montreux "Três anos depois, quando Stevie foi convidado para fechar a Blues night no festival, o público, agora familiar com as canções e discos de Stevie, tratou-o como um herói conquistador. E Stevie tocou novamente como se sua vida dependesse disto porque, como todos nós acabamos por perceber, ele só sabia tocar deste jeito." ______________________________________________________________________ Fabricio, 34 anos, não sabe
bem por que chamou a si mesmo de Raul no texto acima. Quem sabe tenha sido
vergonha.
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