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9:59 a.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Esta
semana resolvi presentear meus leitores com o que posso dar-lhes de melhor:
minha própria ausência - ainda que relativa. Nas
linhas abaixo segue uma tosca tradução - feita por mim mesmo - de algumas
páginas que estão "entre as mais prazerosas e naturais de Diderot", segundo
André Billy (ver mais detalhes aqui). O
original deste texto pode ser encontrado aqui. Por
mais que algumas das críticas de Diderot fossem duras (ver por exemplo: 1 2), ele jamais apelou
para críticas destrutivas para fazer sucesso. P.S.:
meus mais sinceros agradecimentos à Flavia Ballvé-Boudou, também
colunista do Tsc,Tsc,Tsc, pela ajuda na tradução. Obrigado mesmo!
Arrependimentos
sobre meu roupão ou Conselhos
àqueles que têm mais gosto que riqueza por
Denis Diderot Por que
não o guardei? Ele era feito para mim, eu era feito para ele. Ele se moldava a
todas as dobras do meu corpo sem incomodá-lo; eu era pitoresco e belo. Não havia
nenhum desejo ao qual a sua indulgência não se prestasse; isto porque a
indigência é quase sempre extra-oficial. Um livro estava coberto de poeira, e um
de seus panos se oferecia para limpá-lo. A tinta se espessava e se recusava a
caminhar na minha pena, e ele apresentava seu flanco. Via-se nele, traçado em
longos raios negros, os freqüentes trabalhos que ele me tinha feito. Esses raios
longos anunciavam o literato, o escritor, o homem que trabalha. Hoje em dia
tenho o ar de uma vagabundo. Não se sabe quem sou. Sob o
seu abrigo, eu não temia nem a falta de jeito de um criado, nem a minha, nem os
estilhaços do fogo, nem o derramamento da água. Eu era o senhor absoluto do meu
velho roupão; tornei-me escravo do novo. O dragão que vigiava a lã de ouro não
era mais inquieto que eu. A preocupação me cerca, me
domina. O velho
apaixonado que se entrega, pés e punhos amarrados, aos caprichos, à mercê de uma
jovem louca, diz desde a manhã até a noite: "Onde está minha boa, minha velha
governanta? Que demônio me cegou no dia em que eu a expulsei por esta aqui?"
Depois ele chora, ele suspira. Eu não
choro, eu não suspiro; mas a cada instante digo: maldito seja aquele que
inventou a arte de dar um preço ao tecido comum ao tingi-lo de escarlate!
Maldita seja a preciosa vestimenta que venero! Onde está meu antigo, meu cômodo
trapo? Meus amigos, guardem seus velhos amigos. Meus amigos, temam a chegada da
riqueza. Que o meu exemplo os instrua. A pobreza tem suas franquezas, a riqueza
tem seus constrangimentos. Ó
Diógenes! Se você visse o seu discípulo sob o faustoso manto de Aristipo, como
você riria! Ó Aristipo, este manto faustoso foi pago com um bom número de
baixezas. Que comparação entre a sua vida covarde, rasteira, afeminada, e a vida
livre e sólida do cínico andrajoso! Eu deixei o barril onde reinava para ser
submisso a um tirano. Isso
não é tudo, meu amigo. Escute os efeitos nocivos do luxo, as conseqüências de um
luxo importante. Meu
velho roupão era um entre os outros velhos cacos que me cercavam. Uma cadeira de
palha, uma mesa de madeira, uma tapeçaria de Bergame, uma tábua de pinheiro que
sustentava alguns livros, algumas estampas enegrecidas pelo tempo, sem moldura,
pregadas pelos cantos sobre esta tapeçaria; entre estas estampas, três ou quatro
gessos suspensos faziam, com meu velho roupão, a indigência mais
harmoniosa. Tudo
está em desacordo. Não há mais conjunto, não há mais unidade, não há mais
beleza. Uma
nova governanta estéril que sucede alguém num presbitério, a mulher que entra na
casa de um viúvo, o ministro que substitui outro ministro com a reputação
arruinada, o prelado molinista que se apodera da diocese de um prelado
jansenista não causam mais problemas que o escarlate intruso causou na minha
casa. Eu
posso suportar sem desgosto a vista de uma camponesa. Este pedaço de pano
grosseiro que cobre sua cabeça; esta cabeleira que cai esparsa sobre suas
bochechas; estes farrapos esburacados que a vestem pela metade; esta má roupa de
baixo que só vai até a metade de suas pernas; estes pés nus e cobertos de lama
não podem me machucar: é a imagem de um estado que respeito; é o conjunto de
desgraças de uma condição necessária e infeliz que eu lamento. Mas meu coração
dispara; e, apesar da atmosfera perfumada que a segue, eu afasto os meus passos
e desvio o olhar desta cortesã com penteado a pontos da Inglaterra, e os punhos
esgarçados, as meias e os sapatos sujos me mostram a miséria do dia associada à
opulência da véspera. Tal
teria sido meu domicílio, se o escarlate imperioso não tivesse colocado tudo sob
seu uníssono. Eu vi a
Bergame ceder a parede, na qual
ela estava há tanto tempo ligada, ao forro de tecido
adamascado. Duas
estampas que não eram sem mérito: "O maná no deserto", de Poussin, e "Esther
diante de Xerxes", também dele; uma vergonhosamente expulsa por um ancião de
Rubens, que é a triste Esther; a "maná" dissipada por uma "Tempestade" de
Vernet. A
cadeira de palha largada na antecâmara pelo sofá de couro de luxo.
Homero,
Virgílio, Horácio, Cícero, socorrer a fraca peça de pinheiro curvada sob sua
massa, e se fechar num armário ricamente ornado, asilo mais digno deles do que
de mim. Um
grande espelho se apoderar da coifa da minha
lareira. Estes
dois lindos gessos que obtive graças à amizade de Falconet, consertados por ele
mesmo, deslocados por uma Vênus agachada. A argila moderna destruída pelo bronze
antigo. A mesa
de madeira ainda disputava terreno, a salvo por uma multidão de brochuras
amontoadas desordenadamente e que pareciam ter o dever de subtraí-la muito tempo
do destino cruel que a ameaçava. Um dia ela teve a sua sorte selada, e, apesar
da minha preguiça, as brochuras e os papéis foram se enfileirar nas garras de
uma escrivaninha preciosa. Instinto
funesto de conveniências! Tato delicado e ruinoso, gosto sublime que muda, que
desloca, que edifica, que inverte; que esvazia os cofres dos pais; que deixa as
filhas sem dote, os filhos sem educação; que faz tantas coisas belas e tão
grandes males, você que substituiu na minha casa a fatal e preciosa mesa de
madeira; é você quem perde as nações; é você que, quem sabe um dia, conduzirá
todos os meus pertences sobre a ponte Saint-Michel, onde vai se ouvir a voz
rouca de um juiz gritar: uma Vênus agachada por vinte
luíses. Havia
um ângulo vazio ao lado da minha janela. Este ângulo pedia uma secretária, que
ele acabou obtendo. Outro
vazio desagradável, entre a prancheta da secretária e o belo retrato de Rubens,
foi preenchido por dois La Genée. Aqui
está uma Madalena do mesmo artista; ali, um esboço de Vien ou de Marchy; por que
eu também me interessava em esboços. E foi assim que o reduto edificante do
filósofo se transformou no gabinete escandaloso do publicano. Eu insulto assim a
miséria nacional. Da
minha mediocridade inicial, só restou um tapete franjado. Este tapete mesquinho
não combina com meu luxo, eu o sinto. Mas eu jurei e eu juro, já que os pés de
Denis o filósofo jamais pisarão numa obra-prima da Savonnerie (*), que eu manterei comigo este tapete, assim como um camponês
transferido de sua palhoça para o palácio de seu soberano guarda seus velhos
sapatos. Quando, de manhã, coberto com o suntuoso escarlate, eu entro em meu
gabinete, se abaixo a vista percebo
o meu velho tapete franjado; ele me lembra meu primeiro estado, e a vaidade pára
na entrada do meu coração. Não,
meu amigo, não: eu não estou corrompido. Minha porta se abre sempre à
necessidade daquele que me procura; ele me encontra com a mesma afabilidade. Eu
o escuto, o aconselho, o socorro, me apiedo dele. Minha alma não se endureceu;
meu nariz não se empinou. Minhas costas estão boas e redondas, como continuarão
a estar daqui em diante. É o mesmo tom de franqueza; é a mesma sensibilidade.
Meu luxo é de data recente e o veneno ainda não agiu. Mas com o tempo, quem sabe
o que pode acontecer? O que esperar daquele que deixou de lado sua mulher e sua
filha, que se endividou, que cessou de ser esposo e pai, e que, ao invés de
deixar no fundo de um cofre fiel, uma soma útil... Ó,
santo profeta! Levante sua mão ao céu, reze por um amigo em perigo, diga a Deus:
se você vir nos seus decretos eternos que a riqueza vai corromper o coração de
Denis, não poupe as obras-primas que ele idolatra; destrua-as e o reconduza à
sua primeira pobreza; e eu direi ao céu de minha porta: ó Deus! Eu me resigno à
oração do santo profeta e à sua vontade! Eu lhe abandono tudo; sim, tudo, com
exceção do Vernet. Ah, me deixe o Vernet! Não é o artista, é você que o fez.
Respeite a obra da amizade e a mantenha. Veja este farol, veja esta torre
adjacente que se ergue à direita; veja esta velha árvore que os ventos
despedaçaram. Como esta massa é bela! Abaixo desta massa obscura, veja estes
rochedos cobertos de vegetação. É assim que sua mão possante os formou; é assim
que sua mão benfeitora os revestiu. Veja esta esplanada desigual, que desce dos
pés dos rochedos até o mar. É a imagem das degradações que você permitiu que o
tempo exercesse sobre as coisas mais sólidas do mundo. O seu sol teria iluminado
de outro modo? Deus! Se você destruir esta obra, dir-se-á que você é um Deus
ciumento. Tenha piedade dos infelizes esparsos sobre esta margem. Não é
suficiente para você ter-lhes mostrado o fundo dos abismos? Você só os salvou
para perdê-los? Escute a súplica deste que lhe agradece. Ajude os esforços
daquele que reúne os tristes restos de sua fortuna. Feche os ouvidos para as
imprecações deste furioso: que pena! Ele se prometeu retornos tão vantajosos!
Ele tinha pensado no repouso e na aposentadoria, ele estava na sua última
viagem. Cem vezes a caminho, ele calculou por seus dedos o fundo de sua fortuna,
ele tinha arranjado emprego para ela: e, então, todas suas esperanças foram
frustradas; mal lhe restou o que lhe cobrisse os membros nus. Seja tocado pela
ternura destes dois esposos. Veja o terror que você inspirou a esta mulher. Ela
lhe rende graças pelo mal que você não lhe fez. Entretanto, seu filho, muito
jovem para saber do perigo a que você lhe expôs, e também a seu pai e a sua mãe,
se ocupa do fiel companheiro de viagem; ele segura a coleira de seu cachorro.
Tenha piedade do inocente. Veja esta mãe que acabou de sair das águas com seu
esposo; não é por ela mesma que ela tremeu, mas por seu filho. Veja como ela o
abraça contra seu seio; veja como ela o beija. Ó Deus! Reconheça as águas que
você criou. Reconheça-as, quando seu sopro as agita, e quando sua mão as
pacifica. Reconheça as nuvens sombrias que você juntou, e que lhe agradou
dissipar. Assim que elas se separam, elas se distanciam, e o clarão do astro do
dia renasce sobre a face das águas; eu pressagio a calma neste horizonte
avermelhado. Como é distante, este horizonte! Ele não se confina com o mar. O
céu desce mais abaixo e parece girar em volta do globo. Acabe de clarear este
céu; acabe de devolver ao mar sua tranqüilidade. Permita a estes marinheiros
fazer o seu navio afundado navegar novamente; ajude o seu trabalho; dê-lhes
forças, e deixe a mim o meu quadro. Deixe-me, como a vara que com a qual você
castigará o homem vão. Já não sou eu que sou visitado, é o Vernet que as pessoas
vêm admirar na minha casa. O pintor humilhou o
filósofo. Ó meu
amigo, o belo Vernet que eu possuo! O motivo é o fim de uma tempestade sem uma
catástrofe desagradável. As águas ainda estão agitadas; o céu coberto de nuvens;
os marinheiros se ocupam de seu navio afundado; os habitantes acorrem das
montanhas vizinhas. Como este artista tem espírito! Não lhe foi necessário mais
do que um pequeno número de figuras principais para juntar todas as
circunstâncias do instante que ele escolheu. Como toda esta cena é verdadeira!
Como tudo está pintado com ligeireza, facilidade e vigor! Eu quero guardar este
testemunho de sua amizade. Eu quero que
meu genro lhe transmita a seus filhos, e estes aos filhos que nascerão
deles. Se você
visse o belo conjunto deste pedaço; como tudo ali está harmonioso; como as
causas e conseqüências se encadeiam; como tudo se faz valer sem esforço e sem
preparo; como estas montanhas da direita são vaporosas; como estes rochedos e os
edifícios sobre eles são belos; como esta árvore é pitoresca; como esta
esplanada é iluminada; como a luz se degrada; como estas figuras são dispostas,
verdadeiras, agitadas, naturais, vivas; como elas interessam; a força com a qual
elas são pintadas; a pureza com a qual elas são desenhadas; como elas se
destacam do fundo; a enorme extensão deste espaço; a verdade destas águas; estas
nuvens, este céu, este horizonte!
Aqui o fundo é privado de luz e a frente é iluminada, ao contrário da
técnica comum. Venha ver meu Vernet. Mas não mo
subtraia. Com o
tempo, as dívidas serão quitadas; o remorso se acalmará; e eu terei uma
satisfação pura. Não tema que o furor de amontoar belas coisas me domine. Os
amigos que eu tinha, ainda tenho; e o número não aumentou. Eu tenho Laïs, mas
ela não me tem. Feliz entre seus braços, estou prestes a cedê-la àquele que eu
amarei e que ela tornará mais feliz que eu. E para lhe dizer meu segredo ao
ouvido, esta Laïs, que se vende tão cara aos outros, não me custou nada (**). (*) tapetes de extraordinária qualidade fabricados por uma
manufatura estabelecida no século XVII numa velha fábrica de sabonetes (a
palavra Savonnerie significa, em
francês, fábrica de sabonetes). (**) André Billy colocou neste ponto uma nota segundo a qual Diderot
pagou vinte e cinco luíses a Vernet pela sua Tempestade, apesar do texto dizer o
contrário. Laïs era um nome de várias cortesãs gregas, o que confundia muitas
pessoas.
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