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2:16 p.m. - 2004-12-14
Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe

Algumas Obsessões
Fabricio


Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe

Foi com expectativas contraditórias que comecei a ler o romance Sofrimentos do Jovem Werther, clássico de Goethe (Nova Cultural; Coleção Obras-Primas; tradução de Alberto Maximiliano). Explico: se por um lado o autor é um dos mais importantes da literatura alemã em todos os tempos, por outro lado o enredo conhecido - um jovem se mata por amar demais - me parecia, à distância, piegas e exagerado.
 
E, já a partir do início, Sofrimentos do Jovem Werther tinha tudo para não me agradar: contado em primeira pessoa na forma de cartas a um amigo pelo próprio Werther, um pintor e desenhista sem ocupação fixa, o livro utiliza, freqüentemente, uma linguagem extremamente empolada - exatamente um dos defeitos que critiquei no livro Drácula, de Bram Stoker (ver aqui). Dois exemplos:

Minha alma inunda-se de uma serenidade maravilhosa, harmonizando-se com as doces manhãs primaveris que procuro fruir com todas as minhas forças.
e
Quando fico sentado naquele lugar, é como se em mim ressurgissem os costumes patriarcais, os tempos em que nossos ancestrais se conheciam e noivavam, junto dos poços, e os gênios benfazejos adejavam em torno das fontes e nascentes. Aquele que for incapaz de sentir isto como eu jamais bebeu novas forças na água fresca de uma fonte, depois de uma penosa caminhada em pé, em pleno verão!
Apesar dessa semelhança aparente de estilo entre os dois livros (Drácula, inclusive, também é contado através de cartas), o personagem Werther é verossímil de um modo que os personagens do livro de Bram Stoker não são nem remotamente. Sua história é contada de uma forma quase sempre intensa e impulsiva - não importando se o momento é de alegria ou de tristeza. À maneira de Diderot  - a quem admirava muito aliás -, Goethe tem verve. Seu estilo é vivo e colorido. O defeito representado pela linguagem empolada é amplamente obscurecido pela grandeza do conjunto.
 
O início do livro mostra Werther morando numa vila rural, em busca de inspiração para suas pinturas no campo. É quando ele vive a grande alegria de estar em contato íntimo e intenso com a Natureza, com a criação de Deus:
 
Quando em torno de mim os vapores do meu vale querido se elevam, e o sol a pino procura devassar a impenetrável penumbra da minha floresta, mas apenas alguns dos seus raios  conseguem se insinuar no fundo deste santuário; quando, à beira da cascata, ocultas sob os arbustos, descubro rente ao chão mil diferentes espécies de plantazinhas; (...) sinto a presença do Todo-Poderoso que nos criou à sua imagem, o sopro do Todo-Amante que nos faz flutuar num mundo de ternas delícias; (...)
 
O restante da história é extremamente simples: quando conhece a jovem e bela Carlota, Werther se apaixona quase que instantaneamente. Apesar de conseguir estabelecer uma forte amizade com a sua amada, desde o início ele sabe que este é um amor impossível - já que ela é noiva de Alberto, um rapaz sério, rico e de bom caráter. A partir de então Werther vai ficando cada vez mais desesperado graças à sua intensa paixão. Suas tentativas de melhorar sua vida - ele chega a arranjar um emprego fixo - são infrutíferas, e ele acaba por se suicidar.
 
É com grande maestria que Goethe descreve os sucessivos estados de ânimo de seu personagem. Inicialmente este se conforma com sua má sorte - nesta fase, apenas estar na presença de sua amada Carlota já lhe serve de consolo. Com o tempo, entretanto, a paixão sufoca aos poucos Werther que, de gentil e otimista, vai se tornando infeliz e irritadiço. A falta de bom senso dos apaixonados vai se revelando no personagem, que começa a inventar defeitos inexistentes no sensato Alberto (o qual demonstra uma paciência acima do normal para com o apaixonado por sua noiva), além de idealizar o tempo todo a sua amada - ele simplesmente não consegue perceber nenhum defeito nela. E a grandeza de Goethe está na maneira absolutamente verossímil com a qual o personagem passa de um estado de espírito a outro: por mais amargo que vá se tornando, Werther continua com os mesmos modos impulsivos - e simpáticos, eu poderia acrescentar - e com o mesmo estilo literário para escrever suas cartas. A verdade é que o livro é tão bem feito e verossímil que, vendo à distância, nem parece assim tão absurda a enorme onda de suicídios que ele causou quando do seu lançamento (em 1774).
 
Pensando bem, a Igreja da época não estava muito errada em tentar banir Sofrimentos do Jovem Werther - uma gigantesca obra de arte, mas que deve ser lida apenas como tal.

 

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