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2:16 p.m. - 2004-12-14 Algumas Obsessões
Foi com expectativas contraditórias que comecei a ler o romance
Sofrimentos do Jovem Werther, clássico de Goethe (Nova
Cultural; Coleção Obras-Primas; tradução de Alberto Maximiliano).
Explico: se por um lado o autor é um dos mais importantes da literatura alemã em
todos os tempos, por outro lado o enredo conhecido - um jovem se mata por amar
demais - me parecia, à distância, piegas e exagerado.
O início do livro mostra Werther morando numa vila rural, em busca de inspiração para suas pinturas no campo. É quando ele vive a grande alegria de estar em contato íntimo e intenso com a Natureza, com a criação de Deus:
O restante da história é extremamente simples: quando conhece a jovem
e bela Carlota, Werther se apaixona quase que instantaneamente. Apesar
de conseguir estabelecer uma forte amizade com a sua amada, desde o início ele
sabe que este é um amor impossível - já que ela é noiva de Alberto, um
rapaz sério, rico e de bom caráter. A partir de então Werther vai ficando cada
vez mais desesperado graças à sua intensa paixão. Suas tentativas de melhorar
sua vida - ele chega a arranjar um emprego fixo - são infrutíferas, e ele acaba
por se suicidar.
É com grande maestria que Goethe descreve os sucessivos estados de ânimo de seu personagem. Inicialmente este se conforma com sua má sorte - nesta fase, apenas estar na presença de sua amada Carlota já lhe serve de consolo. Com o tempo, entretanto, a paixão sufoca aos poucos Werther que, de gentil e otimista, vai se tornando infeliz e irritadiço. A falta de bom senso dos apaixonados vai se revelando no personagem, que começa a inventar defeitos inexistentes no sensato Alberto (o qual demonstra uma paciência acima do normal para com o apaixonado por sua noiva), além de idealizar o tempo todo a sua amada - ele simplesmente não consegue perceber nenhum defeito nela. E a grandeza de Goethe está na maneira absolutamente verossímil com a qual o personagem passa de um estado de espírito a outro: por mais amargo que vá se tornando, Werther continua com os mesmos modos impulsivos - e simpáticos, eu poderia acrescentar - e com o mesmo estilo literário para escrever suas cartas. A verdade é que o livro é tão bem feito e verossímil que, vendo à distância, nem parece assim tão absurda a enorme onda de suicídios que ele causou quando do seu lançamento (em 1774). Pensando bem, a Igreja da época não estava muito errada em tentar banir
Sofrimentos do Jovem Werther - uma gigantesca obra de arte, mas que deve
ser lida apenas como tal.
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