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3:31 p.m. - 2004-12-14
You are the quarry, Morrissey
You are the quarry, de Morrissey

Ao contrário do lançamento de estúdio anterior de Morrissey, Maladjusted (de 1997), You Are The Quarry (que será lançado na Europa em 17 de maio, nos Estados Unidos um dia depois e no Brasil só em 22 de junho) tem recebido pareceres mais do que favoráveis da mídia internacional. A pergunta é inevitável: quem mudou de lá para cá? A crítica ou o cantor? Creio que não erra quem responde "ambos".

A verdade é que Maladjusted tinha músicas extraordinárias (por exemplo, “Alma Matters” e a faixa-título) que compensavam, com sobras, os pontos fracos do disco (“He Cried”, “Ambitious Outsiders”). Somada a isto a qualidade extraordinária dos lados B dos singles do álbum (“Lost”, “The Edges Are No Longer Parallel” e “This Is Not Your Country” estão entre as melhores faixas da carreira do ex-frontman dos Smiths), pode-se afirmar com segurança que – ao contrário do que a crítica dizia – Morrissey não estava decadente em 1997.

Então não há como negar que You Are The Quarry seja um dos melhores álbuns que o mancuniano já produziu – pois, ao contrário do que ocorreu com o anterior, é muito difícil apontar uma faixa realmente fraca neste que está sendo considerado o "renascimento" de Morrissey. O disco cintila, lírica e musicalmente falando.

Em entrevista recente, o próprio Morrissey declarou que escrevia canções sob “pontos de vista dele, mas também de outras pessoas” – exatamente o que sua melhor amiga, Linder Sterling, disse em um documentário (bem anterior) sobre os Smiths na TV inglesa. Isto provavelmente explique por que algumas letras do cantor sejam “incoerentes” umas com as outras. Bom exemplo disso são duas faixas de Maladjusted. Se em “Ammunition” ele fala de alguém que não tem mais tempo para vingança, em “Sorrow Will Come To You In The End” a letra – provavalmente contra o ex-baterista dos Smiths, Mike Joyce, que o processou – é vingativa e rancorosa.

A partir disto, uma boa maneira de entender as letras de Morrissey é tentar sentir a poesia nelas, racionalizando-as o menos possível. Assim se percebe melhor o grande poeta que ele realmente é.

“I'm Not Sorry” fala de alguém que não se arrepende e cuja mulher dos sonhos nunca apareceu. “I Have Forgiven Jesus” tem a forte passagem: “Segunda, humilhação/ Terça, sufoco/ Quarta, condescendência/ Quinta é patética/ E sexta, a vida me matou”. Na impressionante “All The Lazy Dykes”, ele dá um conselho para uma lésbica que não se assume: "Em um belo dia você vai ser boa consigo mesma e vai se juntar às garotas". “I Like You” fala de uma pessoa apaixonada por outra – a qual parecia ser tão legal, mas que simplesmente caiu fora.

“Let Me Kiss You” tem letra inesperada, tragicômica (“Feche os olhos e pense em alguém que você admira fisicamente/ E deixe-me beijá-la/ Então você abre os olhos e vê alguém que você fisicamente despreza/ Mas meu coração está aberto para você”). Como muitas outras letras, “Let Me Kiss You” vai e volta, apresentando diversas possibilidades. Morrissey em sua melhor forma poética.

“Come Back To Camden” começa terrivelmente pungente (“Tem algo que eu queria te contar/ É tão engraçado que você vai se matar de rir/ Mas então eu olho em volta e lembro que estou sozinho/ Sozinho/ Para sempre”). Mas esquenta no final, de maneira lindamente poética (“Sua perna vem descansar junto da minha/ Então você deita com os joelhos separados e para cima/ E eu e meu coração/ Soubemos/ Soubemos para sempre”). “You Know I Couldn't Last” é uma direta contra os jornalistas que sempre avacalharam sua carreira solo ("Os críticos que não podem acabar com você/ De certa maneira, sem o saber/ Eles fizeram você"). Mas provavelmente a melhor letra do disco seja “How Can Anybody Know How I Feel?” ("Eles disseram que me respeitam/ O que significa/ Que o julgamento deles é doido/ Eu tenho estado com minha cabeça afundada/ Em quinze milhas de merda".

Se You Are The Quarry impressiona pelas letras, na parte musical não fica nada atrás. “How Can Anybody Know How I Feel?” é pesada ao modo de Southpaw Grammar, mas mais melodiosa (grudenta mesmo) do que qualquer faixa deste disco. Um pouco menos pesada mas tão impactante quanto é o primeiro single, “Irish Blood, English Heart”.Duas são contagiantemente alegres: “The First Of The Gang To Die” e “I Like You”, que tem aquela característica tão própria de Morrissey – conforme comentei aqui – de deixar o ouvinte completamente feliz (por que você acha que ele tem tantos fãs exacerbados?).

E You Are The Quarry tem muitas canções melodiosas com estrofes lentas e refrões dramáticos, o que dá um caráter épico a elas (conforme Bowie disse certa vez, Morrissey é mestre em criar canções monumentais a partir de temas aparentemente banais). Deste grupo fazem parte “You Know I Couldn't Last”, “Come Back To Camden”, “I'm Not Sorry” (que tem solo de flauta!), “I Have Forgiven Jesus”, “All The Lazy Dykes” (com uma linha inesquecível no final). E oálbum tem canções de qualidade um pouco inferior às demais: “This World Is Full Of Crashing Bores” e “America Is Not The World”. Mas, conforme comentei acima, de fracas elas não têm nada.

Assim como os lados B de Maladjusted, tudo indica que os de You Are The Quarry terão qualidade excepcional. Os três já lançados junto com o single de “Irish Blood, English Heart” (“It's Hard to Walk Tall When You're Small”, “Munich Air Disaster 1958” e “The Never Played Symphonies”) são excelentes. E como ocorreu com “Lost” (que veio no single de”Roy's Keen”, em 1997), ficamos nos perguntando o que faz alguém colocar como b-side uma maravilha como “The Never Played Symphonies”...

 

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